escarafunchando no baú...

domingo, 31 de julho de 2011

Velhas Oportunidades para a nossa (re-)Educação

  
A propósito desta “coisa” das “Novas Oportunidades”, do “copianço” no CEJ, dos tão brilhantes, quão repetitivos, resultados dos exames nacionais do ensino primário e secundário e do desemprego de milhares de jovens licenciados e cérebros deste Portugal, apraz-me buscar as causas para estes fenómenos.

Por todos é reconhecido, tal como fiz referência no texto Uma Política cheia de tudo. Uma Assembleia cheia de nada., a mudança de valores verificada na nossa sociedade, decorrida do passar dos tempos e comum a outros países do “mundo desenvolvido”. Essas mudanças tiveram um mais imediato e outro mais distanciado efeito sobre a população jovem (que se está a formar para substituir os pais e avós nos seus próprios destinos e nos do País), contribuindo em boa e má conta para a formação física, intelectual e moral dessa franja etária.
Hoje, as famílias são mais pequenas, têm cada vez menos crianças e os adultos são pais mais e mais tarde, por força da formação superior e da procura de emprego que tarda em satisfazer os critérios da estabilidade. São em cada vez maior número os agregados monoparentais e com um só filho. Os adultos são sujeitos a cargas horárias de trabalho que lhes “comem” quase todo o dia, para lá do pouco dinheiro que ganham. Acrescenta-se ao stress causado pelo chefe no emprego, os afazeres em casa, depois do primeiro. Somando tudo, dá um estado de muita impaciência e difícil de aturar “putos” cheios de energia, e de irreverência às vezes! Em consequência do pouco tempo disponível para os “piquenos”, estes são depositados em frente ao ecrã, a comer bolachas, enquanto a mãe, ou o pai, cozinham o jantar; ou então, alternando, quando a força e a necessidade são maiores, depositados em frente ao caderno, sem grande apoio pedagógico, ou com o possível tendo em conta todas as tarefas anteriores dos progenitores. Amalgamando tudo, não pode dar coisa boa: a veia da intolerância e rabugice passa alegremente para as crianças, a do esforço e trabalho fica pelo caminho.
“O pepino é mal torcido desde pequenino”, quero dizer, a educação que os pais de hoje prestam aos de amanhã não é seguramente, nem podia ser de maneira nenhuma, a que os pais de ontem deram aos de hoje. Não pode, porque a sociedade é “outra”: o regime (português) mudou, as coisas são diferentemente vistas, as pessoas têm menos tempo umas para as outras, a religiosidade entre nós atenuou-se, o culto está hoje na pessoa (na pessoa-criança, especialmente) e no material, no virtual, no fictício.
 
IEFP - Iludimos os Esperançados num Futuro em Portugal

Como se não bastasse uma sociedade pouco “interessada” em educar os seus filhos, a política vem “ajudar à missa”. Prova disso é o sistema de educação que hoje temos. Não renego os avanços verificados no Portugal democrático pela maior amplitude do acesso ao ensino, mas todos concordamos que o sistema montado não capacita os jovens para enfrentar os desafios da vida, e até se configura como elitista: o facto de a escola pública estar carente de meios, disciplina e exigência e organização leva os jovens-ricos à procura das escolas privadas (com notória vantagem comparativa face ao conjunto das primeiras). Aglutina-se a isto as teorias do “eduquês” – «o deixar desenvolver o jovem sem a interferência tiranizante do indivíduo adulto» (ver O «eduquês» em Discurso Directo: Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista, Nuno Crato, Gradiva, 2006) –, que imobilizam as capacidades de crítica, de memorização, de auto-disciplina e trabalho, de perseverança e paciência dos jovens portugueses. Acrescenta-se ainda o materialismo na Educação (como são exemplo os “Magalhães”) e a ausência de planos de leitura obrigatórios nos cursos de línguas na formação escolar. Tudo isto “obra e graça” dos sucessivos governos desta democracia que, na vanguarda da “educação progressista”, não se deram ao trabalho de “parar para pensar”, preferindo o conforto do “quanto mais tarde [a reforma do sistema] melhor” ou do “quanto mais dinheiro [no sistema] melhor”. O resultado é o que se vê e segue!

Um dos mais acabados exemplos desta política educativa errónea são as “Novas Oportunidades”. O programa em questão só traz mesmo “novas oportunidades” ao nome que tem, porque aos que ele frequentam oferece pouco mais que ilusão. Constitui, porventura, um crime a acreditação de mais e menos jovens a torto e a direito, valendo para a obtenção do diploma pouco mais que a assiduidade às sessões dos cursos oferecidos. É um crime, não porque as pessoas não tenham "direito e prazer em estudar" e "saber mais" e “regressar à escola”, nem sequer pelo “risco” de termos “literatos a mais” em Portugal; mas antes porque se quer fazer querer aos frequentadores que três semanas nas “Novas Oportunidades” equivalem a três anos no Ensino Secundário, porque os conhecimentos lá "adquiridos" não se revelam nem úteis nem suficientes para desafiar no mercado de trabalho, porque a diplomação feita não corresponde aos efectivos conhecimentos dos alunos do programa.
Sendo assim, não nos admiremos dos problemas de inclusão social, estrutura mental e preparação para a vida activa da geração jovem (que, por sinal, é a minha).
CEJ - Cultivamos a Ética Juvenil

Não constitui por isso surpresa, ou não devia constituir, o episódio do “copianço geral” no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). É bom lembrar que não estamos a falar de uma cena numa qualquer EB23 ou mesmo numa Secundária (que, mesmo aí, seria grave); estamos pois a lidar com licenciados em Direito que frequentam um curso de elite de formação de magistrados (juízes e investigadores do Ministério Público), cujas funções a desempenhar são nevrálgicas no Estado de Direito Democrático que formamos – integrarão um dos órgãos de soberania da República – a Justiça e os Tribunais. Seria suposto exigir aos futuros “Sr.s Juízes” e "Sr.s Magistrados" que se pautassem pelos mais cuidados critérios de honestidade e integridade; mas, pela solução que a direcção do CEJ encontrou para “resolver” o caso, só posso mesmo [infelizmente] exclamar “estão bem uns [direcção do CEJ] para os outros [alunos do mesmo]”! Repara-se que os decisores (os de primeira instância – direcção do CEJ – e os de última – deputados e governantes) não se mostram muito incomodados e preocupados com o assunto. Afinal, quem nunca copiou nos exames?!

Os resultados dos exames nacionais são outro dos mais visíveis e mensuráveis efeitos da política educativa. A esse propósito, eles não são famosos! É ainda mais intrigante a diferença estabelecida entre as notas atribuídas pelo professor na avaliação contínua escolar e aquela dada pelo corrector do exame nacional, a cada disciplina. Esta “inflação” torna impossível uma comparação histórica credível: quanto vale um "16" hoje comparado com outro de há três décadas? Ainda para mais, é reconhecidamente diminuído o nível de exigência praticado nessas provas, sendo algo que me conduz à interrogação: quais seriam os resultados dos exames, e a diferença entre estes e as notas da referida avaliação contínua, se as provas nacionais avaliassem realmente os conhecimentos de todos os estudantes necessários à matéria respectiva? A resposta permitiria-nos avaliar o estado do nosso sistema educativo. Mas ela não existe. Há muito que mudar!

A consequência futura das medidas tomadas no sector formativo é o desemprego juvenil. Já hoje, esse problema é dramático. Não só nesse escalão etário, mas muito particularmente nele. Segue-se inevitavelmente a emigração dos jovens desempregados, muitos deles (ou alguns deles) com ideias, sentido empreendedor e experiência ao melhor nível mundial. Um desperdício geracional. Um sinal dos tempos.

A política do “não desagradar o Povo” deu e dá no que se viu e continuará a ver. Como se montar um sistema educativo exigente, que não se foque apenas nos momentâneos resultados dos exames nacionais (mas que os torne efectivos medidores das capacidades dos alunos), mas tão-somente em tendências de longo prazo e em reformas duradouras, fosse “desagradar o Povo”. Essa construção não tem de implicar o retrocesso do que foi conseguido em democracia: liberdade universal do acesso ao ensino. É preciso um acordo político total, sob pena de mais e mais miséria e dependência no futuro, à custa da má preparação da geração de hoje e das ilusões criadas por esta ao frequentarem cursos superiores de pouco valor prático.
A vida é só uma. Não se pode pôr no lixo uma geração, dizendo-lhe que se está a colocá-la num resort de luxo. Se a política educativa for verdadeiramente progressista, a sociedade será mais saudável, autónoma e esforçada, terá menos filhos irreverentes e egoístas e tornará possível o progresso com base na energia dos seus jovens. Cabe tudo nas mãos dos governantes. Portugal agradeceria melhores práticas, o Resto do Mundo também!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Transporte (público) que vem e vai para o “lixo”

O governo (o novo) decidiu, nestes dias, aumentar as tarifas do transporte público intra-urbano 15% e do inter-urbano 2,7%. É uma medida constante do memorando de entendimento assinado pelo governo (o anterior) com a troika externa, nos últimos meses. Relembra o governo (de novo, o novo) que o dito memorando prevê um aumento ainda maior para o transporte intra-urbano (a rondar os 20%) e que (novamente) o governo tentou minimizar o efeito desta medida sobre as pessoas de rendimentos mais pobres, através do “título especial de transporte para as famílias com menores rendimentos”. Ainda assim, sabemos que a “festa” destes aumentos não fica por aqui!
O País a descarrilar
De facto, o transporte (público) em Portugal está carente. Está carente e os seus défices são crónicos. Logo, a solução para o seu problema não pode ser cosmética. A sua falha é e resulta da visão que os governos têm tido do conceito de cidade e de mobilidade. Não se pode ter uma cidade harmoniosa onde viver, em que existam mais carros que pessoas. Não se pode criar uma rede de mobilidade pública sem “linhas bus“ para autocarros e táxis. Não se pode ter uma cidade limpa, com ar respirável, se tivermos nas metrópoles uma grande quantidade de fontes de emissão de gases poluentes (principalmente, carros) e uma pequena de absorção desses gases (nomeadamente, zonas verdes). Não se pode incentivar o menor uso possível dos transportes rodoviários privados, sem se ter passeios pedonais ao serviço dos transeuntes adequadamente largos e não esburacados. Não se pode melhor controlar o estacionamento ilegal sobre as zonas pedonais se não houver, primeiro, a sensibilização da população (não pedonal) para a problemática e, segundo, a imposição de barreiras físicas que evitem esses fenómenos (colocação de pilaretes, por exemplo). Atacar os défices do sector dos transportes colectivos apenas pela rama económica é um erro. Está-se apenas a caminhar a prazo para o seu desmantelamento (e falência) e não para o seu desenvolvimento.
Apesar das críticas que se apontam e que se devem apontar à actuação dos governos nesta área, há aspectos positivos que hoje não devem ser esquecidos.

Metro: debaixo de Terra, acima do Orçamento
Primeiramente, foi feito em Portugal um investimento significativo no melhoramento da rede de transportes públicos, principalmente intra-urbanos. Note-se, a esse respeito, a abrangência da rede do metropolitano de Lisboa e do metro de superfície do Porto. Acontece que esses melhoramentos viram-se hoje contra as próprias empresas gestoras dos equipamentos (Metro de Lisboa e Metro do Porto). Os custos iniciais elevados dos investimentos, que se associam a derrapagens escandalosas das respectivas obras de construção, fizeram aumentar insustentavelmente o endividamento das companhias, que hoje se vêm em grandes dificuldades para solver os seus compromissos. Análise semelhante pode ser feita em relação à CP e à REFER.

Carris sobre o seu nome, até ver…

Em segundo, algumas empresas, nos últimos tempos, conseguiram dar a volta a prejuízos crónicos, sem deslustrar o serviço prestado. Nesse ponto, note-se o serviço da Carris hoje, comparando-o com o de há 6 anos ou mais. É hoje, e assim continuará até ser desmantelada, a Carris uma empresa “sobre carris”, que presta um verdadeiro serviço público com o melhor da gestão pública (que até parece privada!). A empresa tem registado ultimamente resultados operacionais positivos (que não entram em conta com as operações financeiras e fiscais da empresa); (já) não é mal vista pelos seus clientes, e a tudo isto se deve o trabalho desenvolvido pela sua administração (liderada pelo Dr. José Manuel Silva Rodrigues) na formação dos seus quadros (hoje mais orientados para o cliente do que para o sindicato), na melhoria da rede ao nível dos atrasos dos autocarros, na constituição de “linhas certificadas”, na inovação de serviços (como o Night Bus) e na renovação da frota de autocarros. Teme-se, por isso, que trabalhos (como o desta administração da Carris) realizados nos anos recentes sejam desperdiçados com o novo "modelo" “pensado” para a mobilidade pública.
Calçada Portuguesa

Usar mais o transporte público é urgente. Por uma questão económica. Por uma questão ambiental. É fulcral diminuir o consumo de energias fósseis para reduzirmos a dependência energética. Os gases com efeito de estufa emitidos pelas viaturas põem em risco a vivência do Homem na Terra como hoje a conhecemos. Embora sejam conhecidas estas necessidades, o nosso País continua a ser o 12º do Mundo com mais automóveis per capita, estando à frente de países como a França, o Reino Unido, a Espanha ou a Suíça. Aqui, 54 em cada 100 pessoas têm carro. É este um dos maiores símbolos do nosso consumismo, mas também um dos maiores resultados das políticas pro-automóvel, de que são exemplo: a construção massiva de infra-estruturas rodoviárias de norte a sul de Portugal continental, nas últimas décadas, e os incentivos à compra de carro novo (ao abate de veículos em fim de vida), mais recentemente.
A estes assuntos o (novo) governo responde, por enquanto, com um aumento brutal dos preços nos Sabe-se que o preço dos títulos de transporte dirigido ao cliente está muito abaixo do custo real marginal do uso do mesmo. Talvez 60%. Esse ratio é fruto da circunstância do bem servido ser público (misto, mais rigorosamente) e não privado. Não se pode exigir uma tarifa a pagar pelo consumidor igual ao custo real da “produção” da mobilidade. Se assim for, não será mais possível distinguir a Carris da Barraqueiro. O problema que se coloca ao sistema de transportes tem a ver com as indemnizações compensatórias provindas do Estado Central em benefício das companhias públicas de mobilidade, devido à prática de preços abaixo do custo real. Sabe-se que o seu pagamento se atrasa consecutivamente. O problema não está então no modelo económico de transportes, mas sim na sua aplicação. Falta dinheiro para essas transferências. As empresas são obrigadas a endividarem-se. É uma espiral sem fim. Ou melhor, o fim é onde estamos.
transportes públicos. A medida é socialmente injusta e inaceitável, mas economicamente eficaz e [mais] compreensível, a esse respeito.

As opções políticas tomadas sobre esta temática não têm tido em conta uma visão de futuro, mas apenas acertos de curto prazo. Não se compreende a aposta no sector rodoviário, em detrimento do ferroviário. Não se compreendem muitas outras coisas. Mas esses não são argumentos para reavivar sentimentos regionalistas do tipo “cada cidade deve pagar os prejuízos das suas empresas de transporte”. No estado em que o Estado está, não é momento para separatismos. De sacrifícios ninguém gosta. Contudo, pode e deve ser feito melhor no campo da mobilidade. O País e o Planeta agradecem!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma Política cheia de tudo. Uma Assembleia cheia de nada.

AR: onde os deputados passam o Inverno
Começo esta travessia da publicação opinativa, dissertando sobre o estado da “freguesia” política e da “casa” da democracia/de todos.
Durante estes anos, ou quem preferir, durante estas décadas, temos sido levados para um beco de difícil saída. Ou melhor, verdadeiramente na nossa História, pese embora a glória a que se lhe associa e os orgulhosos feitos nela verificados, fomos não raras vezes conduzidos pelo esbanjamento “novo-riquista”, prepotência e falta de visão dos nossos governantes (salvo muito estimadas excepções). Esta é a nossa idiossincrasia e daqui não saímos: lá se diz que os portugueses trabalham bem quando são governados e mal quando se governam. É bem capaz de ser verdade!
Mas, excluindo esta reflexão histórica que não nos leva a sítio algum, porque História que é História não se muda, foquemo-nos nos últimos anos, ou quem preferir, nas últimas décadas. A este respeito, o panorama é negro e confirma, ponto a ponto, o Passado anteriormente verificado. É, por isso, irónico que o período em que o País conheceu maior estabilidade política, financeira, económica, embora à custa da liberdade, igualdade e desenvolvimento social, tenha sido aquele do século XX que vivemos sob ditadura. Analisando: na democracia, desde 1974: já pedimos ajuda financeira externa três vezes, o crescimento económico (tirando o empurrado pelos Fundos de Coesão e o alcatroamento de lês-a-lês) é decrépito, as áreas económicas de especialização são de difícil vislumbramento, desapareceram as cinturas industriais das metrópoles e fecham cada vez mais fábricas, na agricultura a produção nacional não vinga cá dentro e não é competitiva lá fora (salvo poucos mas bons ramos desse sector), a corrupção e o clientelismo são “lapa na rocha”… – Portugal transformou-se numa sociedade de serviços, no “reino” dos call centers. Se formos por aqui, a Democracia não deixa muitas saudades… Não quero com isto fazer a apologia do Salazarismo, que deixou um País apático, “chorão” e ignorante, mas fria e coincidentemente foi nele que conhecemos os tempos áureos do crescimento e a consistência das finanças públicas que hoje tanto almejamos.
Indo à raiz valorativa da nossa comunidade, a par do que se verifica noutros lugares, ela também se alterou profundamente. A “sociedade do consumo” em que nos inserimos, tornou-nos “homens-máquina” egoístas, materialistas, desesperançados, mentirosos… – no fundo, pouco “religiosos”.
Seguindo esta tendência, na política passa-se o mesmo.
Primeiro, trouxe sede de poder e de dinheiro de grupos económicos e de facções sociais e partidárias: Os políticos rodam entre si de quatro em quatro anos, esvaziando e enchendo o aparelho do Estado de boys e girls que por serem do grupo A ou B, e não por terem a formação A ou B ou o mérito A ou B, têm a benesse mensal de 5000€ ou 10000€… ou 30000€… ou… numa empresa pública, numa direcção-geral… Os eleitos parlamentares e autárquicos não representam os eleitores, por conseguinte, os eleitores não se sentem representados pelos eleitos – a estes últimos compete-lhes agradar ao chefe partidário que os (re-)nomeiam para listas candidatas à AR, autarquias ou outros cargos públicos, pelo que quanto menos “derem nas vistas” e mais “calados” estiverem melhor. As grandes holdings cercam os grandes partidos, financiando-os encapotadamente, entranhando-se nestes com representantes nas suas direcções e, por consequência, nas funções políticas. As redes de interesse e as organizações “discretas”, como a Maçonaria, dominam o Estado, dele dependem e de si fazem depender as decisões políticas tomadas: ou, por um lado, os governantes pertencem a esses grupos; ou, por outro, se não pertencem sentem-se intimados a consultar as “opiniões” de quem pertence, pela força que estes últimos têm na sociedade e pelos benefícios futuros que aqueles podem tirar se agradarem a estes “companheiros”.
Segundo, tal como a sociedade, a política tornou-se “de consumo”. O vírus da mentira alastrou-se, sendo hoje poucos os políticos que põem a verdade acima dos interesses eleitoralistas partidários. A esse respeito, os últimos seis anos de governo foram paradigmáticos: um (ex-)primeiro-ministro que mentia desavergonhadamente, sem ética nem moral, criminoso, até, na maneira de gerir a propriedade colectiva de aumentar a propriedade privada, sua e dos seus íntimos (em dinheiro, influências, “papeis”, etc.). Mas não só o anterior se infectou com essa peste: também o actual primeiro-ministro, embora num grau notoriamente mais reduzido, desdisse-se e, para variar de paradigma (!), aumentou os impostos logo que pôde – a contradição não está em aumentá-los (algo que nos políticos é relativamente previsível, pelo que a sua promessa de não aumento não constitui juramento credível), nem sequer na falta de coerência em Passos Coelho (PPC – que, em poucos meses, dias, horas consegue dizer o exacto oposto do que julgava “pensar” anteriormente sobre um assunto – deve-se, ainda assim, ressalvar o facto do ziguezague de PPC se revestir dum carácter não tão premeditado como acontecia com Mr. José…); a causa é antes a humilde e visceral falta de preparação, e inteligência, até, para exercer cargos públicos, não obstante das boas intenções que nele se notam. A análise desta prática pode ainda expandir-se aos brilhantes antecessores José Manuel, António, Aníbal e Mário, mas, francamente, isso tornar-se-ia aborrecido, monótono e desinteressante...
Com todo este iluminado quadro de competência, seriedade e honestidade, altruísmo e serviço cívico, não espanta que o Parlamento (suposta “casa da Democracia", representativa do Povo, dos seus interesses, anseios e preocupações) seja cada vez mais visto com descrédito e desprimor. Para mais, assiste-se à quebra geral, “geral” em todas as bancadas, da qualidade dos deputados: ou pelo abandono voluntário de “históricos” que representavam o melhor (ou o mais razoável…) do serviço ao Estado; ou pelo abandono forçado de outros que não agradam às direcções partidárias, e que não se agradam com os lideres que têm.
Neste sentido, é de notar no PSD, para exemplificar, um êxodo de gente comprovadamente capaz e não tão “pegada” aos interesses “mundanos”: enumerando, são exemplos a Dr. Ferreira Leite e o Dr. Pacheco Pereira que, apesar dos seus feitios e momentâneos falta de senso, acrescentavam saber, verdade e rigor. Histórias semelhantes poderão ser encontradas na bancada do PS, onde também se verificou um “refrescamento” dos seus constituintes, ocorrendo-me os nomes de Jaime Gama e Vera Jardim (embora estes apenas por gozarem da respeitável condição de “idosos”). Noutro patamar, mas não menos relevante, são de lamentar as ausências de Maria José Nogueira Pinto e José Manuel Pureza. A primeira de inigualável inteligência, serviço aos outros e crença em Portugal ainda há pouco nos deixou, tendo partido para outro lugar (onde certamente estará em paz…), fixando um vazio que já hoje se nota. O segundo não conseguiu ser reeleito pelas listas do BE, partido com a qual tenho poucas ou nenhumas semelhanças, mas a ele reconhecia competência, contributo e não tão fácil antipatia (como verificamos em alguns dos seus colegas da “Mesa”) que, por ora, ficam descurados com os passados resultados eleitorais.
Acentuando esta crítica, podemos avaliar as figuras que hoje nos são “referência”. Nesse contexto, chegamos ao Palácio de Belém, onde mora o político português mais "dinossauro", medonho e mesquinho: Mr. Cavaco de seu nome que já anda nestas “aldeias” faz mais de 30 anos (embora se tenha sempre considerado um “mero professor universitário”), um verdadeiro político "de corredor", provinciano, que, diga-se em abono da verdade, representa bem o “ser português”.
Com isto nos vamos governando, ora mais à esquerda ora mais à direita, ao sabor das marés e tempestades que nos colhem. Revezam-se os políticos e revezamo-nos nós pelo avançar das gerações…

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Criações, avanços, ou recuos, na sociedade de informação


Vivemos, segundo dizem, numa comunidade onde dominam a electrónica, o imediatismo e a vida fast. Vivemos, segundo dizem, em constantes stress, impaciência e intolerância. Vivemos, segundo dizem, numa democracia plural e aberta a todos, onde nos chamam para intervir e opinar. Proliferam, por isso, petições e mais petições, clubes de opinião, blogs e mais fóruns de discussão, na rádio, na TV ou “só” na Internet. Todos têm a dizer sobre qualquer coisa. Não há ninguém que diga “de facto, não estou informado para julgar esse assunto”. A ninguém lhe falta a presunção da heroicidade e do conhecimento.
Perante esta “diarreia” opinativa, consubstanciada nos atributos acima descritos, e para não ficar atrás dos meus concidadãos, criei O Jusdiceiro.
A “coisa diversa” sobre a qual me debruçarei abrange tudo aquilo que mexe com a opinião pública, onde estão a Política (essa “ovelha ronhosa” da sociedade…), a Economia (esse insuportável Saber que nos assalta a carteira…), o Futebol (essa insanável "Religião" onde encontramos o Sporting de muitos e as vigarices de alguns, que volta e meia são notícia…), a Música (essa Arte que nos acalma…), a Gastronomia (essa Ciência que nos prepara o estômago para tudo o resto…), etc., etc.
Contribuirei, com a regularidade que puder e com a paciência que me vier, para a minha "zona de despejo". Fá-lo-ei com a melhor ponderação e o sentido crítico que me ocorrer. Mas, como “um homem não é de pau”, se tiver de descarregar em alguém (ou ninguém), cá estarei! Umas “postas de pescada” (especialmente, se bem fritas…) de vez em quando também enriquecem a prosa.
Posto isto, resta que me invadam o assunto, “o engenho e a arte”.
Aguardemos…