escarafunchando no baú...

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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A conta e o perdigoto

A propósito da actualidade que saltita na praça, não querendo exactamente estar a bater no ceguinho (até porque já o fiz), queria apenas registar um apontamento sobre o caso das Cavacas.

Cavaco Silva representa o português típico tornado em classe média/alta.
Veio duma família numerosa, pobre, de zona rural, agrícola, do que os lisboetas chamam, prosaicamente, de “província”. Tal como os agregados das regiões fora dos grandes centros urbanos, os pais de Cavaco dedicavam-se à agricultura, sendo ajudados pelos filhos mais velhos. Por isso, eram poucos os que seguiam os passos da literacia avançada, excepto se revelassem grandes dotes nos números e nas letras.
O aconteceu com Cavaco: seguiu a “instrução primária” e o “liceu” nas suas vizinhanças, empenhou-se, mostrou-se o melhor dos seus pares e veio para Lisboa tirar um curso superior, coisa pouco vulgar em rapazes de semelhantes origens.
Jovem aplicado, “marrão” como invejosamente chamam agora, lá se fez licenciado nas Economias. Prosseguiu-se com mérito e, daí para outros voos (BdP, política, …), foi um salto pequeno.
No meio dessa carreira fantástica, viu-se enriquecido, com poder e cheio de importâncias.

Enfim, duma ascensão tão rápida e “fácil” como esta, não se está à espera que o sr. não se fizesse acompanhar das suas origens, dos seus hábitos, das suas “maneiras”.
É, pois, isso que (me) irrita em Cavaco: Um burguês nos estilos de vida mas mesquinho nos seus “pormenores”, arrogante na “ciência” mas humilde nos tiques, requintado no guarda-fato mas saloio nas manières.

Por isso, não joga a conta bancária com o perdigoto!

domingo, 8 de janeiro de 2012

“Leves” doses de populismo

Anda por aí um sacerdócio militante a dizer que Alexandre Soares dos Santos (ASS) fez e aconteceu com a Jerónimo Martins, e que até faz lembrar o Eduardo também dos Santos, ditador das Angolas, ou mesmo o Ricardo Carvalho, desertor das "bolas".
Bem estaríamos nós se mais empresários houvesse como ASS, que criasse tanto emprego como ele cria e que pagasse tantos impostos como ele paga, coisa aliás que parecem (querer) duvidar por estes dias.
Até Rebelo de Sousa veio, sei lá em nome de quê ou "quem", dizer assado, frito e cozido que o outro fez ao “patriotismo” e a “crença” na “Nação”.
Isto sim é um limite que se impõe ao bom senso e juízo, e não cada um pensar e fazer o melhor que tem a fazer para se/nos tirar do fosso.
Raios partam o populismo!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cada macaco zela pelo seu galho


Tem sido grande, por aí, o espanto/irritação/indignação que gerou a decisão de migração para as holandas por parte da dona do Pingo Doce. Um dos exemplos desse(s) sentimento(s) foi a intervenção de Frei Fernando Ventura, pessoa que inspira bondade, duma profundidade intelectual e espiritual mais que bastantes. Creio, contudo, ter exagerado desta feita.

Não me cabe dizer se fizeram bem ou mal. Há argumentos prós e contras, todos eles francamente válidos. O que tenho a afirmar é a minha compreensão perante o facto. Deixo só algumas notas:
1)      Não haja dúvidas que, tal como é “desculpa” para a Jerónimo Martins, as mudanças permanentemente profundas que os partidos operam no sistema fiscal português não atrai de todo o investimento. E, pelos vistos, afasta o que ainda cá anda.

2)      Percebo o argumento do presumido não “patriotismo” dum grupo económico que se “evade” de pagar os seus impostos entre nossos muros. Mas devemos igualmente perceber que, se a actividade de uma empresa é gerar lucro, tal como a de um trabalhador é auferir um melhor salário, não podemos censurar aquela por procurar mecanismos, perfeitamente legais, de obter maior rentabilidade. Tal como, estou certíssimo, um trabalhador assim o tentaria, caso tivesse oportunidade para tal (como é o caso dum que muda de emprego, porque o novo lhe oferece melhores perspectivas de salário, carreira, etc.).
A juntar-se a isto, vivemos num mercado único, chamado UE, no qual o capital tem perfeita agilidade, tal como as pessoas, os bens... Só assim podemos viajar para Paris sem mostrar o passaporte no aeroporto, bem como comprar sapatos italianos a custos mais reduzidos.
É, visto assim, uma decisão puramente racional, e legal.

3)      Poderia, o leitor mais atento, pensar que me estou a contradizer com aquilo que escrevi em Fuga de Capitais, mas não. O agravamento fiscal que defendi para os mais (que mais) ricos seria feito em sede de impostos sobre o património e do rendimento (IRS). Caso o governo preferisse substituir a penalização tributária sobre empresas com o aumento da carga sobre os mais abastados, evitar-se-iam situações semelhantes às da Jerónimo Martins, com eminente atracção de investimento externo. Nada disso: Os governos têm pensado alcançar “sol na eira e chuva no nabal”, sem “sol” nem “chuva”. O resultado está aí!

4)      Sobre o assunto, deixo a impressão de Pedro Boucherie Mendes (fulano cujo o humor muito me agrada) e com a qual tendo a concordar: «Ah e tal juros baixos é fixe, subsídios para auto-estradas é fixe, andar de avião por tuta e meia é fixe, comprar na Amazon é fixe, livre circulação de capitais é fixe. Mas a Jerónimo Martins fazer o que quer com o $ deles, já não é fixe?»

Concluindo: Entendendo a ideia de sacrifício colectivo, realizo, igualmente, no mesmo patamar, que os agentes, económicos, sociais, procurem o melhor para si. No fundo, somos todos livres. Desde que essa liberdade não se faça à custa da lei e da ética. O que não é este o caso, ressalve-se.

Grande Ocidente Lusitano


Anda por aí grande agitação acerca da Maçonaria. Descobriram-na. Parabéns!
Foi preciso chegar-se tão tarde para (começarem a) perceber os nefastos efeitos que as sociedades secretas têm produzido nas Democracias. Na nossa, particularmente. Aliás, pergunto-me, tal como fez Sousa Tavares: porque carga de água existem "sociedades secretas" se a “democracia” em que estamos vai sendo livre e transparente? Que escondem?
Escondem os interesses económicos, sociais, políticos. Escondem os negócios, as vigarices, a corrupção, o tráfico de influências. Escondem a chulice ao Estado, o compadrio, os favorecimentos nos casos judiciais, os arranjos nos ajustes directos, ... Percebe-se.
O que não se percebe é como foi possível passar-se tanto tempo sem que (quase) ninguém se tenha apercebido do que se denomina por "bloco central" mais não é que o jogo em que a Maçonaria participa. O que não se realiza é como tenha sido possível passarem-se tantas legislaturas sem que estas questões tenham sido decentemente enquadradas na Lei. O que não se entende é como andam os partidos há décadas nesta cega-rega, deixando-se infiltrar por esta gentalha, sem alcançarem o perigo que ela traz para o seu futuro e o da própria “democracia”.
Ou melhor, talvez se perceba, realize e entenda, já que falamos de "secretas" e da mesma gentona que tomou as rédeas do tal "bloco" desde sempre...

PS: Para mais, ler os esclarecedores textos de Franciso Fonseca e de Daniel Oliveira.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

2011-2012

O ano que está a acabar foi brutal. Em todos os sentidos. Não poucos foram os momentos marcantes, espectaculares e arrasadores. Estou em dúvida de o não esquecer ou de o nunca mais me recordar.
Confesso que aquela praxe de se desejar um ano próspero, cheio de paz, amor, saúde e dinheiro me faz cada vez menos sentido. Em 31 de Dezembro de 2011, muita foi a gente a desejá-lo, e não foi por isso que 2011 foi sortudo para a Humanidade. Bem pelo contrário!
Num Globo a ferver, onde os interesses se sobrepõem ao humanismo, e o que importa é a matéria e não o sentimento, prever a prosperidade dos Homens e a compaixão dos seres é cada vez mais uma aposta de risco.

2011 marcou pela guerra, pelo conflito, pelo desassossego. Desde a “Primavera árabe” ao “Occupy Wall Street”, da morte de Bin Laden à matança na Líbia, da deserção de Sócrates à detenção de Duarte Lima, de Jardim ao(s) "buraco(s)" e "desvio(s)", de Isaltino à Face Oculta, do Strauss-Kahn ao(s) Berlusconi(s), das eleições às manifestações, da(s) austeridade(s) à troika, das cimeiras ao par Merkozy (ou Merkely, melhor dito), da(s) Grécia(s) aos bancos, das agências de rating (e do “lixo” que lhes seguiu/e) ao colapso (por oficializar) da União Europeia, tudo mudou (alguns destes e outros mais eventos acompanhados n’O Jusdiceiro).
Um tempo terrível este. Não se está bem em quase parte nenhuma do Mundo. A Europa está debilitada na autoridade e no bem-estar. Os EUA enfraquecidos na economia e na influência. O norte de África e o golfo pérsico assolados pelo sangue e pela rebelião. O sul e centro de África avassalados pela miséria e pelas cheias. A China orientada para a desumanidade capitalista e para o autoritarismo intransigente. As Coreias impenetradas pela tensão político-militar permanente. A Noruega assustada pelo fanático assassinato. E até o Japão, então das mais “calmas” nações, foi invadido pela tragédia natural e energética este ano.

Num Mundo sem norte, com cada vez mais gente (7 mil milhões) e cada vez menos condições para lhe oferecer (o Ambiente, os solos, os recursos, o ar, a água,…), está-se a tornar uma miragem o progresso, a paz e o amor, quanto mais a saúde e o dinheiro para todos…

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A TVI

 A TVI está de volta às polémicas. Parece um íman que se leva aos casos e controvérsias sociais. Já os teve por várias razões. Depois dos episódios de Manuela Moura Guedes, do caso “PT-TVI” e de outros mais recatados que apareceram, agora a “Casa dos Segredos”. É a demonstração prática da teoria de Schumpeter que, não raras vezes, os próprios economistas têm dificuldades em passar do papel. De tempos a tempos, a TeleVisão Independente (assim lhe chamam) faz gáudio de aparecer nos catálogos da estupidez nacional.
"Uma televisão feita por si": podera...!

Nunca gostei da TVI. Irritam-me várias coisas nela. Desde já, a obsessão pela “ficção nacional”. Só pelo facto do seu mais honroso serviço ser o de passar novelas aos serões, é algo já de si bem demonstrativo da pobreza da estação.
Mas fora isso, o resto também não se aproveita. O jornalismo é paupérrimo. Faz questão de o ser: sensacionalista, populista, demagogo, tendencioso, pouco rigoroso. O que sobra não é melhor. Os programas de entretenimento, as manhãs do Goucha e as "Tardes da Júlia", ou qualquer coisa parecida que agora ilumina a ignorância nacional, são o espelho dum canal que só dá “bosta” (e acho que não estou a exagerar). Mas claro: nada disto a plebe ignora, por razão alguma a TVI é líder em audiências (só mesmo nisso). Salvam-se apesar deste tudo algumas reportagens irreverentes, não menos populistas, embora mais didácticas, e alguns comentários políticos. Uma gota neste oceano.
E depois vêm os reality shows. Uma moda importada, infelicíssima, não tão recente assim. Já conhecíamos os “Big Brothers” e as “Quintas das Celebridades”. Agora, essa “Secret Story” transposta.
Ainda sobre “celebridades”, que aliás a TVI tanta questão faz em formar, promover, idolatrar, lembro-me de João Gobern (fulano um tudo irritante, mas que desta acertou na mouche) que se entristeceu com um “País onde as baratas tontas da fama nada fazem para se aproximar desta, a não ser rastejarem nos comportamentos e disparatarem nas ideias”. Estas criaturas “célebres” são-no porque desempenharam papéis de “bruxa má”, “engatatão”, assassino em série, ou uma tipa que não hesitou em mostrar as mamas, nas novelas ou nos ditos “shows”, que o mesmo canal patrocina. Um ciclo interessante!

Não nos deve surpreender, neste colo tão inútil e abjecto, que a tal “Casa dos Segredos” seja um resultado disto tudo.
O País já tinha tido oportunidade de apreciar a forma mais genuína da ignorância da sua populaça, superiormente iluminada por uma concorrente. A juntar a isto, deu-se a pensar que, afinal, em consonância com o verbo “descarado” do nosso actual primeiro-ministro, por alturas da campanha de Maio, a história das “Novas Oportunidades” não serve mesmo para nada (como fiz referência em tempo “longínquo”). Obviamente não me querendo alongar na caracterização dos outros resíduos de tal “Casa”.
Agora, o Portugal do “nobre Povo” espanta-se (?) com o “segredo” dum tipo que, à boleia de fama tão instantânea e esperta, decidiu-se tentar enfiar em tal concurso, contando que o seu pai fora, em tempos, um praticante de corte e costura nos ventres humanos. (Recomendado o artigo de Ricardo Araújo Pereira na Visão desta semana, com o titulo: Édipo e Teresa Guilherme: um estudo)
Ao passo de tanta paralisia intelectual, a situação era a de uma combinação filho-pai (não sei qual o mais esclarecido), para que aquele, em potencial sacrifício deste, atingisse o trilho do “conhecimento”: que todos o conhecessem!
Isto tudo contado por um semanário sedento de investigações originais, irrequietas e incómodas, por meio duma jornalista experimentada, que muito tem prestado à Nação pelas histórias que escreve (com dose de seriedade). Mas que, francamente, neste caso, caiu numa esparrela ridícula. Merecia mais cuidado.

Um episódio delirante este numa Pátria entregue a Chico-espertos, ignorantes, aldrabões e ociosos. Tal coisa que só vem mostrar o triste fado da nossa “Justiça”, a passividade da Investigação Criminal que cá actua, a insensatez desta “Sociedade” e a parolice da Comunicação Social lusitana.
E é caso para perguntar, numa altura em que o Governo tem ideia firme sobre o modelo de imprensa e de “serviço público”: como conseguirá ele (o Governo) garantir uma televisão responsável, culta e informativa, ao mesmo tempo que entrega mais uma estação pública ao privado? Como se compatibiliza uma TV privatizada como uma TV credibilizada? Ou não estará o mesmo nem aí para se ocupar com tais questões?

Finda a estupidez generalizada (?), e findo o meu discurso, apetece questionar: quando o secretario de Estado da Juventude incitou os jovens à emigração, estaria ele a pensar em quem cá ficaria para tomar as rédeas desta Cidadania, ou a magicar forma mais simples de se reeleger à pala de eleitorado tão cultivado?
Este “concurso mentecapto, corruptor e perverso” (de novo citando o referido fulano) é tão-só a consequência dum sistema educativo débil, desresponsabilizante e flácido, e não a sua causa. Por esta razão “é o funcionamento da Democracia Portuguesa que está em causa”, como disse Balsemão, mas não pelas suas justificações. Um aviso seríssimo!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Olha para a esquerda, e pisca-pisca!


O concílio de "Estaline" e "Trotsky": já se falam!


Portugal é diferente no Mundo em muita coisa: pela sua História, pela sua gente, pela sua paisagem, pela sua comida, pela “sua” meteorologia, etc., etc.. Também na política este País se destaca do Resto do Mundo, ou, no mínimo, do Resto da Europa. Um dos melhores exemplos disso é o peso comparativo da Esquerda-radical.
Há muito que explique esse fenómeno, mas também muito que não o explique… É verdade que tivemos uma ditadura católico-conservadora de direita durante 48 anos, é verdade que no período revolucionário pôs-25/4 (PREC) os partidos de Esquerda e os sindicatos ganharam uma força brutal, é verdade que ainda hoje o País é pobre e que aqui os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, é verdade que os Portugueses não gostam de mudar (talvez pela herança "católico-conservadora" sejam isso mesmo: conservadores). Tudo isso não é mentira, mas também não o é o facto de: a ditadura já lá ir há 37 anos (!), o PREC só deixar saudades aos que nele se envolveram, Portugal ser um País europeu (e não sul ou centro-americano), os Portugueses terem uma vida confortável ainda assim, a Lusitânia não ser um “reino” industrial, dos operários explorados e oprimidos, novamente etc., etc..

Nas últimas Legislativas (5/6), a “verdadeira Esquerda” teve uma derrota estrondosa: perderam votos, perderam deputados, perderam força. A mensagem “não passou”; ou não podia passar, tal era (é) a sua inexequibilidade. Barafustaram contra o acordo da troika, sem sequer o terem negociado, mas não disseram, porque não sabiam (sabem), o que fariam se governassem (em ficção) para resolver o problema de liquidez da nossa Economia. Em rigor, percebe-se a estratégia: aquela gente estará sempre condenada a protestar, e não a governar, pelo que não precisam de apresentar, apenas e só de rejeitar. Apesar de tudo (resultados eleitorais, “manifesto entregue” pelo eleitorado a esses partidos…), PCP e BE continuam na mesma cega-rega: não perceberam o sinal dos tempos, persistindo na “luta”. Pior que isso, não reconheceram a derrota (ao melhor estilo democrático, como tanto apregoam…), não tiraram ilações. Estão condenados a sucumbir à sua interna podridão. Não há hipótese…

Cá, PC e Bloco acusam (com razão) PSD e PS de alternarem no jogo de poder, de serem parasitas, de só pensarem nos seus interesses, de cortarem no que “não lhes custa”. Mas, se olharmos ao que acontece nos dois conjuntos de partidos (bloco da Esquerda e bloco central), chegamos sem grande esforço àquele ditado: “bem prega o frei Tomás,…”!
Se formos comparar a dimensão do debate interno nos dois blocos, podemos tirar ilações do que seria Portugal se este fosse entregue a trotskistas ou estalinistas. Sim, porque por baixo da capa indefinida “Esquerda”, estão esses fundamentos ideológicos, cujas suas execuções pudemos encontrar em amostra (ou em noção geral) na URSS, noutros tempos, e nalguns persistentes regimes, nos dias que correm.
A diferença de paradigma no que toca ao debate partidário interno pode ser, logo, calculada pelos estatutos dos vários partidos e confirmada, melhor ainda, pela prática corrente dos mesmos. Quando há congressos de PS e PSD, é frequente (embora cada vez menos) assistirmos à dissidência, ao debate, ao confronto, à proposta alternativa (nem que seja pouco alternativa). Para além da acessibilidade a esses encontros, no que ao relato da imprensa diz respeito. Já quando se realizam os conclaves de PCP e BE, muito dificilmente vislumbramos ideias diferentes, oposições internas, moções contrárias, candidaturas múltiplas aos comandos dos partidos, heterodoxias várias ou outros fenómenos comuns nas Democracias. Tudo é igual: as frases, os slogans, os discursos, as palavras; precisamos de uma lupa para achar as diferenças! Já quanto ao acesso dos media, destacam-se os momentos de “discussão” e eleição à porta fechada. Isto sim é transparência e democracia directa!

Muito se pode denunciar os partidos do “centrão” no que respeita ao clientelismo que cerca o sector público, mas também muito se pode induzir, e confirmar, nalgumas situações presentes, que, se PC e BE tomassem o poder, o esquema seria o mesmo, ou pior (é de relembrar que a URSS durou 69 anos – 1,5 vezes o Estado Novo!). Se atentarmos aos “hábitos” das câmaras autárquicas comunistas, inferimos que estas “padecem” de vícios, tão ou mais difíceis de curar do que os daquelas nas “mãos” de PS e PSD (em endividamento, número de trabalhadores autárquicos/habitante, despesas (des)controladas, empresas municipais, populismos, festas e outros foguetórios…; em resumo, má gestão do dinheiro de todos). Algo mais que justifique para os outros fazerem aquilo que eles pregam e não o que eles praticam.

Votação na CDU: sempre a subir!
Mas calma! O ciclo democrático é feito de eleições, em que o Povo possa participar (bem dito). E aí o caso muda de figura (ou não).
Para continuar este passatempo do “descubra as diferenças”, coloco uma questão: alguém se lembra da CDU, desde 1974, ter perdido alguma eleição (uma única que seja)? Nem mesmo quando, em várias Presidenciais, desistiu em favor de outras candidaturas? Nem mesmo quando, em várias Legislativas, não conseguiu capitalizar o descontentamento nos governos socialistas? Nem mesmo quando, a cada eleição, a sua percentagem de votos é sucessivamente menor (ver gráfico) ? Nem mesmo quando, nas Presidenciais de 2001, não atingiu mais do que 5% dos votos? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2009, passou a 5ª força política nacional? Nem mesmo quando, nas Autárquicas de 2009, perdeu 19 câmaras municipais? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2011, não impôs o discurso anti-troika (“interna” e “externa”), nem sequer aproveitou a redução da votação (para metade) do seu vizinho Bloco de Esquerda? Ninguém se lembra?! Nos tempos que atravessamos, precisamos de gente sem temores, imbatível. Não precisamos de procurar muito: está no nosso Parlamento!

Mas, para que a "inveja" não se apodere das outras hostes esquerdistas, o mesmo se aplica a elas. Um e o mais elucidativo exemplo disso foi a reacção do Coordenador da Mesa Nacional do BE (que, noutro partido, tem a original designação de “Secretário-Geral” ou “Presidente”) aos mandatos que o Povo lhe decidiu atribuir nas Legislativas’11. Recorde-se que o Bloco obteve 5,2% dos votos (em 2009, havia obtido 9,8%) e apenas elegeu 8 deputados (em 2009, haviam sido 16). Em qualquer partido (cuja votação se parta ao meio) que saiba assumir as suas responsabilidades, que o seu projecto político não foi aceite pelo Povo, que o seu discurso (a forma e o conteúdo) (já) não é bem escutado pelo eleitorado e que os seus ideais precisam de uma reforma que o escrutínio popular não pode operar, o “Presidente” ou “Secretário-Geral” demite-se e/ou, no mínimo, pede a convocação de um congresso extraordinário o mais depressa possível, para avaliar esses temas. No Bloco, onde tudo é diferente, a começar pelo nome que se dá ao Congresso (Convenção) e ao Secretário-Geral (Coordenador da Mesa Nacional), nada disto acontece.
Louçã “chutou”, e continua a “chutar”, a sua responsabilidade no resultado alcançado pelo partido para o “grande debate interno”, sem se notar qualquer reforma na orientação política, mudança na estrutura directiva (quase a mesma desde a fundação) ou ajuste no discurso, passados que estão seis meses do inquérito universal. E nem o facto de alguns militantes terem vindo criticar a postura do seu líder, demove Louçã da sua (perpétua) estratégia: manter-se no “poder”. São, nesse ponto, conhecidas as opiniões de Daniel Oliveira (um dos militantes que colhe mais simpatias nas outras Esquerdas e Direitas), a renúncia de Miguel Portas ao cargo de membro da Mesa (lá vem outra vez a “Mesa”) e as dissidências de Rui Tavares (embora este seja independente). Para aqueles que, como Louçã, defendem a “revolução permanente”, não mudar nada ao fim de 13 anos de vida partidária, ainda para mais depois de uma brutal queda eleitoral, parece-me muito boa prática. De facto, “não há nada mais prático do que uma boa teoria”!
Talvez a origem deste tipo de comportamentos e na essencial e aparente desagregação interna do Bloco esteja na contradição entre o(s) seu(s) fundamento(s) ideológico(s), a arrogância política e a prática pessoal dos militantes e simpatizantes do partido (desde a base ao topo). Talvez…

É óbvio que nada disto legitima qualquer medida que o “centrão” partidário decida aplicar. Os unanimismos nunca fizeram bem a sociedade alguma, e a Esquerda sabe-o melhor que muitos. Mas, para se ser oposição, é preciso ter o telhado em condições para que, quando se atirar pedras ao ar, elas não caiam na própria casa.
O que me irrita na Esquerda portuguesa é o modelo social que preconizam. Claro que, sem essa "diferença", não seriam Esquerda, mas “Direita”, misturada no rebanho do “neo-liberalismo”. Contudo, esses utópicos sabem que a sua “sociedade ideal” não é possível (burocracia, insustentabilidade financeira, paralisia económica e social,…). Sabem-no por experiência prática. As externalidades e efeitos secundários da sua “luta” estão visíveis na História (e no presente) e pagaram-se caro à Humanidade em guerra, fome, miséria, infelicidade.
Juntando-se a esta minha “irritação”, vem uma outra mais palpável, audível. O “verbo inflamado”, a raiva no discurso, o ressabiamento no way of speaking. Por ventura será por esta “pele de galinha” que a Esquerda está em crise. A irritação não é só minha, pelos vistos. Essa é a parte mais sensível da tal “podridão”. Nada melhor que o explique.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Grupos de pressão: Igreja


A troika da pressão: "unidos venceremos" (quem?) !


Numa altura em que os seres bem pensantes da nossa Praça esperneiam por “alargados consensos”, com razão, devem esses “seres” ter em conta que «neste momento existem três forças com Poder real, em Portugal, independentemente das forças políticas representadas no Parlamento: a Igreja Católica, o PCP e a Maçonaria. Estas “forças” são auto-exclusivas entre si, e cada uma tenta não se deixar infiltrar pelas outras» (bem-dito Brandão Ferreira). Isso explica em toda a medida a inoperância da nossa Democracia, no que concerne às reais e necessárias medidas a tomar.

A aliança PSD-CDS, mal ou bem, está a tentar mexer no que é necessário. E não está a conseguir. Melhor: não vai conseguir.
Neste colete-de-forças que impede a prossecução das políticas mais frutuosas para todos (incluindo para os seus detractores), os três grupos de pressão instalados bloqueiam e bloquearão a acção de quem tentar o Bem.
Contudo, contrariamente ao que seria de supor, e ao que se verificou até há poucos meses, as três casas de compadrio aproximam-se hoje mais que nunca para defender as suas lides. Só assim se explica como Carvalho da Silva venha clamar por maior justiça social, invocando a “Doutrina Social da Igreja” e a própria Igreja Católica se junte ao Bloco de Esquerda no repúdio do OGE’12 que, embora brutal, e criticável claro, é inevitável no geral, e todos o sabem, incluindo a própria Sé.
Todavia, não é fundamentalmente contra o OGE que a Igreja está, não contra a sua previsível relevância num ano de enorme pobreza e necessidade assistencialista óbvia. Mas antes contra o que aí vem.

Perante a dessacralização natural de Portugal, o Patriarcado vê-se a braços com a perda de influência política, de tal maneira que já nem o CDS-PP, partido cristão de origem, se aconselha na agenda política de D. José Policarpo. É por isso que os subsídios às misericórdias vão diminuir e que os feriados religiosos vão acabar, senão pelo menos fortemente diminuídos. Ninguém quer sacrifícios, muito menos a Igreja. O desespero é inevitável, e a crítica, uma consequência disso.
Perante isto, numa lógica de contra-ponto, força de bloqueio e intimidação, reparámos que distintos eclesiásticos da Sé portuguesa se juntaram a dinossauros da Esquerda lusitana numa “manifestação”, primeiro, contra a “insensibilidade social” de Passos e de Portas e, segundo, em oposição à perda de “qualidade” da “democracia” e dos “serviços públicos”.
A Igreja corre o risco de se descredibilizar. Primeiro, porque sabe, mais que ninguém, os riscos que corre o País se não inverter a trajectória que vinha seguindo. Segundo, porque ao baralhar-se com quem quase não tem semelhança ideológica está a desvirtuar o seu posicionamento político (que o tem). E terceiro, ao alterar posições oficiais, ou semi-oficiais, de ano a ano, ao sabor das conveniências, sobre temas vitais para o País (que disse a Igreja do legado de Sócrates?), está em vias de perder a confiança dos cidadãos, a atenção que estes lhe prestam e o carácter “sábio” que sempre caracterizou as suas intervenções.

Mas pronto, parece que o Patriarcado preferiu seguir aquela máxima de que “se não podes com eles, junta-te a eles”. A Sé não pode nem com as forças da Esquerda, nem de sobremaneira com a Maçonaria. Decidiu juntar-se a elas. Acho que não vai dar bom resultado. É um palpite!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

«De Espanha,...»

Sem nos apercebermos, estamos a “comemorar” mais um feriado.
Sem nos apercebermos, estamos a “festejar” uma pausa anti-espanhola, anti-ibérica, pro-independentista.
Sem nos apercebermos, ninguém liga a estas graças. Ninguém sabe sobre elas, quando foram, para que servem.
Sem nos apercebermos, o “gozo” que nos dá ser anti-espanhóis é o mesmo que nos dá a Imaculada Conceição, que não tarda a chegar.

Férias são férias. Feriados, nem se fala…

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Greve ao esforço

Em nome do Povo, do Pão e da Pátria!
É fascinante verificar o agrado descontrolado dos “trabalhadores” (dos seus “verdadeiros” representantes) pela paralisação económica e social que estes dias provocam. É tão bonito reparar nos “jornais que ficam por vender nas bancas”, nas filas imensas das paragens de autocarro e comboio, nas escolas sem professores, nos correios por abrir, no trânsito matinal suplementar…
Se juntarmos a isto as belíssimas “pontes” que se podem construir com estes eventos, ainda para mais seguidas de outros “viadutos” nas semanas que se seguem, chegamos sem hesitação ao “dia histórico” que o de hoje representa, à “vitória“ da plebe “oprimida”, na “luta” da classe operária, contra o “grande”, médio, pequeno, nenhum “capital”. Em geral, contra os que querem trabalhar, os ricos, os pobres, os assim-assim – os que se entregam ao “privado”.
O “direito à greve”, Fundamentalmente consagrado no “Estado dos direitos”, tornou-se um luxo. Razão pela qual apenas a função pública, à sombra do trabalho “precário“ e dos salários em atraso, tem folga para se prestar a estes happenings.
Tudo, sem grande esforço…

domingo, 20 de novembro de 2011

Um regalo

Assunção Esteves: não há muitos assim
Assunção Esteves disse, em entrevista, ter recusado várias vezes aderir à Maçonaria.
Primeiro, de dizer que muito aprecio quem contraria, ou pelo menos não reforça, o peso dessa sociedade secreta na vida portuguesa.
Segundo, de abrir a boca de espanto como uma pessoa, ainda que capaz, chega a Presidente da Assembleia da República, não só não sendo da Maçonaria, como pior que isso recusando-a diversas vezes.
Um regalo!

sábado, 19 de novembro de 2011

Iniciativa de Auditoria Cidadã à Dívida Pública

AR: saibam vós que o Povo está/deve estar atento!
Anda por aí um movimento peticionário (a juntar à colecção vasta de manifestos e de “iniciativas cívicas” que enchem as nossas caixas de correio electrónico) que “pede” uma auditoria pública, civil, participada às dívidas do Estado.
Muito provavelmente, como tem acontecido com petições e posições públicas semelhantes, esta também não vingará. O Governo tem “mais que fazer” e, este ou outro qualquer, não vê com bons olhos essas “modernices” da democracia participada e vigilante, seja a responsabilidade do problema, sua ou dos seus antecessores (o que parece verificar-se neste caso). Essa discordância dos nossos mais altos gestores públicos não me impede de apoiar a ideia, embora reconheça a sua impossível aplicação.
Concordo pela “simples” razão de que é direito e dever de todos, aqueles que se “interessam” e os que “nem querem ouvir falar” dos “assuntos dos políticos” e das “coisas” da finança, estar atentos, perceber e descobrir o rasto dos seus impostos, no estreito exercício da vigilância popular aos actos e negócios públicos, para análise eficiente dos efeitos por estes causados, tanto no passado, quanto (mais) no presente e futuro, seja na esfera económica e social, ou na política e jurídica. É obrigação de todos os cidadãos, não obstante de poderem considerar justa a fundamentação que alicerça esses actos, avaliar as suas consequências e investigar, auditando, as suas origens.
Como tais consequências se revelam brutais no quotidiano hoje vivido, essa necessidade de intervenção, não necessariamente pelo uso da força física, do protesto desgarrado, mas antes da importância da presença e acompanhamento das políticas públicas pelo povo, torna-se absolutamente premente. Ainda para mais, se é preciso mais, quando há a desconfiança do dolo e do desbarato terem suportado as decisões objecto de análise.
Por isso: subscrevo e faço subscrever!

domingo, 6 de novembro de 2011

Feriados

Artigo de Vasco Pulido Valente na edição do jornal Público do passado sábado (dia 5 de Novembro):

domingo, 23 de outubro de 2011

Fuga de Capitais

Quem são os mais ricos de Portugal?
Os ricos estão mais ricos. As 25 maiores fortunas em Portugal somam 17,4 mil milhões de euros, o que corresponde a uma subida de 17,8% face a 2010 e a 10,1% do PIB português, segundo o estudo anual da Exame.

TOP 10:
1. Américo Amorim: 2587,2 milhões de euros
2. Alexandre Soares dos Santos: 1917,4 milhões de euros
3. Belmiro de Azevedo: 1297,6 milhões de euros
4. Família Guimarães de Mello, 1006,6 milhões de euros
5. Família Alves Ribeiro: 779,7 milhões de euros
6. Perpétua Bordalo da Silva e Luís Silva: 679,7 milhões de euros
7. Rita Celeste Violas e Sá, Manuel Violas: 650,6 milhões de euros
8. Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo: 645,8 milhões de euros
9. Família Cunha José de Mello: 638 milhões de euros
10. António da Silva Rodrigues: 551 milhões de euros
É tudo meu!

Não me digam que não há dinheiro! Não me digam que uma taxa de 2,5% (loucura!) sobre as grandes fortunas seria o desastre, a catástrofe, a tragédia, o apocalipse para a nossa Economia. Não me digam que, se uma contribuição (única) fosse pedida a quem mais tem, os 10753,6 M€ dos 10+ iriam “à viola”, sairiam do País, migrariam para a Suíça! (E depois? A Sonae desaparecia? Deixaríamos de ir ao Pingo Doce comprar iogurtes? O Hospital da Luz não mais receberia o Eusébio quando lhe desse a “fininha”? A CUF não mais faria TAC’s a jogadores do Sporting? O Espírito Santo deixaria de estar em toda a parte? O Amorim daria “à sola” com os seus 2587,2 M€ – onde é que ele punha tanta nota?) Não me digam que os sacrifícios são para todos! Não me digam que esta Sociedade é justa!
 Contas por alto, uma taxa de 2,5% só sobre as 10 maiores fortunas de Portugal permitiria uma receita de 268,84 M€. Coisa pouca para um Estado aflito!
Vamo-nos dar ao luxo de deixar fugir este dinheiro? Isto sim é fuga de capitais!

sábado, 22 de outubro de 2011

Estado de Direito

Deputado arguido eleito para o CEJ
Ricardo Rodrigues vai ser julgado por atentado à liberdade de imprensa. Juízes e procuradores contestam escolha de um arguido para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários.


Ricardo Rodrigues (aquele que palma gravadores a jornalistas em flagrante delito (!), quando estes lhe fazem perguntas não totalmente do seu agrado) foi nomeado para o Conselho Geral do CEJ, com o acordo dos partidos com assento parlamentar.
Nada melhor do que um gatuno (para além de outras coisas – um tipo que ainda tem, e não "teve", problemas com a Justiça) para um órgão do Centro onde se formam juízes e magistrados.

Brilhante conluio partidário e o progresso do Estado de Direito ao virar da esquina...

Barbárie

Vídeo que mostra a morte de Kadhafi difundido no Youtube:
Assassino assassina assassino!
Dignidade da pessoa humana é zero!
Estão todos bem uns para os outros!

Classe média democrática

Artigo de Vasco Pulido Valente na edição do jornal Público do passado sábado (dia 15 de Outubro):

domingo, 16 de outubro de 2011

Fado, Futebol ou Fátima?

A propósito da re-calendarização dos feriados (com a qual concordo, mas por razões bastante diferentes das que motivam o Governo), dei-me ao trabalho (não muito) de elencar os dias de repouso por motivos religiosos, e tirei uma conclusão interessante.
Lá muito no meio de “Todos os Santos”, do “Corpo de Deus”, da "Assunção de Maria" (ou da Maria da Assunção) e da "Imaculada Conceição" – ou, resumindo, do Corpo Imaculado de Conceição que parece dum Deus e que agrada a Todos os Santos, inclusive à Maria da Assunção (!) –, juntando-lhes umas “Agonias” espalhadas por esses Concelhos, descobri… um Estado laico, uma Sociedade onde «ninguém é privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de (...) religião [que segue]» (in «Constituição de Abril» – art. 13º, n.º 2).
Precisei de inspiração divina, mas lá encontrei!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Caiu-me mal!

Hoje o jantar caiu-me mal.

A certa altura, por volta das 8h, quando cheguei a casa e liguei o rádio para ouvir as notícias, reconheci uma voz que me não era estranha. Esperei um instante e logo percebi, pelo vozeirão e dicção, de quem se tratava: o nosso primeiro-ministro. Presumi de imediato que se tratasse de uma comunicação à hora dos telejornais, muito provavelmente/certamente versando-se sobre o Orçamento do Estado a apresentar na AR segunda-feira (dia 12). Não me enganei. Como cheguei “tarde” para ouvir aquilo que mais interessava, e estando a escutar os termos “responsabilidade”, “dinamismo” e “cooperação”, fiquei a pensar: «bom, lá está Passos Coelho a pressionar, mais uma vez, Seguro a aprovar o Orçamento e a CGTP a estar quietinha nos próximos anitos e a lançar a escada para um OE com vários cortes». Em parte não me equivoquei, mas o sumo da declaração ainda estava por conhecer. Fui ouvindo e ouvindo até que o senhor se calou. Foi assim tempo para a TSF (onde estava sintonizado) resumir a declaração, apresentando os sons principais. Aí, fiquei boquiaberto!
Como as notícias correm depressa não seria preciso resumir a brutalidade do que hoje nos foi apresentado. Mas, como estamos muito em cima do acontecimento, passo a enunciar: O Governo decidiu, pela oitava conferência de imprensa seguida, comunicar a ida (mais uma) ao bolso dos portugueses. Na circunstância, aprovou a eliminação dos subsídios de Natal e Férias para os funcionários e reformados públicos que ganhem acima de 1.000 € (claramente, classe alta!), a vigorar nos próximos 2 anos. Aprovou também a extensão do horário de trabalho em ½ hora diária no sector privado e a reprogramação dos feriados.
Bom, isto não é um corte, mas um talho. O Governo-talhante anda de “candeias às avessas” para pôr o Estado em ordem, mas não consegue. De tal modo, que não se cansa… mas de aumentar impostos ou de reduzir salários/subsídios (o que vai dar ao mesmo).
Poder-se-ia pensar: «bom, mas, em simultâneo que pedem estes sacrifícios, eles estarão certamente a arranjar fontes alternativas de receita e planos distintos de redução de despesa». Pelo que nos é dado a perceber, e muito provavelmente será afirmado nos próximos dias, isso não se está a suceder. E nem serve de justificação a falta de conhecimento da máquina do Estado, já que o Executivo tomou posse há 4 meses, nem sequer que as medidas de corte da despesa (“supérflua”) precisem de mais tempo para serem estudadas, pois os tais 120 dias deviam chegar, nem ainda que os ajustes salariais sejam os mais rápida e facilmente aplicáveis e eficazes. Nada disto é desculpa. Posso estar muito enganado, mas quero é que me elucidem!
Passos seguiu uma estratégia de anúncio das políticas orçamentais ruins, primeiro, para evitar doses maciças de especulação, e notícia das mais agradáveis para segunda-feira. Resta agora saber o que entende o Governo como “agradáveis”: talvez um aumentozito do IVA da restauração, talvez das taxas moderadoras, talvez… Quanto a isso, só temos de esperar, e de desesperar entretanto!
A missão deste Governo é impossível: juntar o crescimento económico à austeridade. O termo “impossível” não me vem “do pé para a mão” de qualquer jeito, mas antes é baseado, tão-somente, nas previsões estatísticas das autoridades nacionais e internacionais. É mesmo impossível: com medidas de redução no rendimento disponível das famílias, como ouvimos hoje, e de asfixia financeira das empresas, que escutaremos em diante, Portugal não conseguirá crescer e, por conseguinte, pagar o empréstimo internacional que contraiu em Maio. Estou, neste rasgo de pessimismo, a juntar-me ao grupo daqueles que vêm Portugal como a new Greece. Espero estar enganado, espero bem!
Pensando que os credores internacionais (a troika) está mais, ou unicamente, interessada em que Portugal pague o que deve (dê lá por onde der) e como é o Estado que transfere o dinheiro “para” António Borges/Durão Barroso/Jean-Claude Trichet (este de saída, aqueles de “ficada”), o Governo de Passos-Portas assumiu como seu desígnio saldar o défice e controlar a dívida e abandonar estratégias de desenvolvimento económico-produtivo. Dessa forma, não se têm escutado medidas que incentivem o crescimento da produção nacional, que implicam folga orçamental, mas apenas caça ao imposto e razia nas despesas (sem aspas, para melhor acentuação). A questão que se coloca é a forma como se faz essa correcção e aí entra a minha irritação.
Passando para o sermão.
Não consigo perceber, numa altura em que: aumentaram o IVA do gás e electricidade como aumentaram, subiram os preços dos passes e títulos de transporte como subiram, tiraram metade (só?!) do subsídio de Natal (deste ano!) como tiraram, e outras políticas as quais não tenho em mente agora, como é possível este Governo, eleito também com o meu voto e acolhido com simpatia pela maioria dos lusitanos, descartar tão levianamente como o faz sacrifícios aos mais ricos.
As coisas têm de ser proporcionais. Se aqueles que menos têm são os mais onerados pela crise e os que mais têm estão dispensados de contribuir para o esforço financeiro em curso, alguma coisa vai mal. E não é preciso ser-se comunista ou de esquerda (simplesmente – o que não é, de todo, o meu caso) para se dizer uma banalidade destas. Só é necessário bom senso/equilíbrio. Mas parece que Passos está mais interessado em assegurar o equilíbrio das contas públicas do que garantir o equilíbrio das medidas que propõe.
Não estou a ignorar a necessidade de algumas das políticas decididas (com as quais, algumas, até concordo), mas antes a reclamar maior justiça social, ou pelo menos mais exemplo. Não é por isso compreensível que se rejeite tão liminarmente um imposto sobre grandes fortunas ou sobre lucros de grande dimensão (o que, aliás, “custaria” proporcionalmente bastante menos do que tirar 1/7 do vencimento de um funcionário do Estado) que, por muito residual que possa ser a receita pública por ele gerada (algo que carece de melhor avaliação), criaria maior unidade/credibilidade por parte dos cidadãos (em geral). E, quem diz um imposto sobre fortunas, fala também da isenção fiscal da zona franca da Madeira (offshore) ou da menor carga fiscal da banca e dos fluxos dos mercados de capitais.
Não me venham com a história da “fuga de capitais”, porque com essa pode muito bem a nossa evasão fiscal. Se é certo que essa possibilidade existe (a da fuga de capitais para os paraísos fiscais), é ainda mais do que certo que, quando se aumentam impostos, há sempre uns “artistas” que engendram maneira de não pagar esse esforço adicional e, portanto, evadir-se. A coisa é de tal modo apresentada que se acha que, no mesmíssimo dia em que Vítor Gaspar (VG) pudesse anunciar uma contribuição especial a cargo dos mais afortunados (o que só acontece na ficção), os ricos, todos eles, pegariam nas suas jóias e depositariam no UBS. Se com alguns essa tentação era inevitável, com a maioria deles isso não aconteceria. É dos livros, e um professor respeitado como é VG devia saber isto (senão o sabe já). Desse modo, é uma “desculpa de mau pagador” (se lhe posso chamar assim) para o argumentário que usam.

Atrás, disse que o Executivo não estava interessado em fazer o País produzir mais. Talvez tenha cometido uma “injustiça social”. Antes de o ter escrito, devia-me ter lembrado da outra política hoje dada a conhecer por Passos Coelho: o prolongamento do horário laboral. É esta a forma que os parceiros sociais/governo encontraram para compensar o não abaixamento na TSU, a qual relançará a Economia? Se é, é uma asneira. É-o, não porque os portugueses não precisem de trabalhar mais, de se esforçarem mais convictamente, de incrementar a sua produtividade, não porque esse prolongamento possa roubar trabalho a outro pessoal que pudesse ser contratado para colmatar essa carência (como ouvi hoje da boca de João Proença-UGT) nem que fosse pela ½ hora diária sobrante, mas antes porque a nossa Economia não se baseia nas indústrias, nas cadeias produtivas em larga escala como acontece na China, onde ½ hora dá para produzir muita peça, mas antes nos serviços. A decisão é tão acertada que nem aqueles que mais podiam beneficiar e concordar com ela estão do lado de Passos Coelho: a Confederação do Comércio e Serviços e a Empresarial de Portugal. Quando um plano de competitividade não agrada nem a patrões nem a “trabalhadores” (embora estes nunca se agradem facilmente com nada), é porque não serve mesmo. Disparate pegado!

A última nota que queria deixar, para não sobrecarregar mais o Dr. Pedro, que não tarda aparece de cabelos brancos, cifra-se no passado (não muito distante). Dei por mim a pensar em Sócrates (volta e meia tenho destes pensamentos). «Sacana», exclamei eu. Enquanto está ele em Paris a fazer sei lá o quê, com o rabo virado para a lua e a saborear fondus todos os dias, estamos nós (aqui) a pagar a “herança”/”obra” que ele nos deixou. É preciso ser-se, de facto, muito habilidoso para neste momento não estar atrás das grades. Foi um crime o que nos fez (dispenso, neste momento, apreciar os crimes que ele cometeu na esfera privada ou na “privada”), mas há quem, apesar de tudo, o veja como o “melhor primeiro-ministro que Portugal já teve” e idolatre o seu “sentido de Estado” e “interesse nacional” nos tempos em que cá estava. «Vão-se encher de moscas», é o que vos desejo (para não vos recomendar outra coisa). Gostava que alguém se pusesse no terreno e se mexesse para o julgar, como fizeram os islandeses com o seu ex-primeiro (ai se os islandeses viessem cá!). Mas, franca e infelizmente, isso é impossível e vamos continuar a ser um Povo de “brandos costumes”. Não se queixem!

E pronto! No final de contas, acabo esta noite sem perceber se a minha indisposição veio do jantar ou do rádio. O melhor é fazer uma auditoria/inspecção-geral ao estômago e ouvidos, para ver se lá encontro buracos. Quando for tratar disso, direi ao médico: «pois é Sotôr, caiu-me mal»! E assim foi…

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Desempregado, coitado!

ANL: não se trata da Associação Naval de Lisboa, já que o senhor deve andar a navegar em dinheiro!
(adaptação de um e-mail recebido em Outubro de 2011)

António Nogueira Leite (ANL) vai ser vice-presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos e ganhar mais de 20 mil euros/mês. Com ele, a nova Administração do banco público passará a ter 11 administradores, entre executivos e não-executivos. Se isto é fascinante, ainda não viram tudo. Então, reparem bem nos cargos que já tem o senhor…
 Actualmente já é:
·         Administrador executivo da CUF,
·         Administrador executivo da SEC,
·         Administrador executivo da José de Mello Saúde,
·         Administrador executivo da EFACEC Capital,
·         Administrador executivo da Comitur Imobiliária,
·         Administrador (não executivo) da Reditus,
·         Administrador (não executivo) da  Brisa,
·         Administrador (não executivo) da Quimigal
·         Presidente do Conselho Geral da OPEX,
·         Membro do Conselho Nacional da CMVM,
·         Vice-presidente do Conselho Consultivo do Banif Investment Bank,
·         Membro do Conselho Consultivo da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações,
·         Vogal da Direcção do IPRI.
·         Membro do Conselho Nacional do PSD desde 2010.
 Espanta, não?
De facto, o homem é super: um super-homem. Alguém me explica como é que consegue estar em 14 locais de trabalho ao mesmo tempo? Será que, no calendário dele, a semana tem mais do que 7 dias? E não podia dispensar um ou dois tachos para uns genuínos desempregados poderem cozinhar?
Há que haver lugar para todos e, aos Barões, não serve um qualquer…