escarafunchando no baú...

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Olha para a esquerda, e pisca-pisca!


O concílio de "Estaline" e "Trotsky": já se falam!


Portugal é diferente no Mundo em muita coisa: pela sua História, pela sua gente, pela sua paisagem, pela sua comida, pela “sua” meteorologia, etc., etc.. Também na política este País se destaca do Resto do Mundo, ou, no mínimo, do Resto da Europa. Um dos melhores exemplos disso é o peso comparativo da Esquerda-radical.
Há muito que explique esse fenómeno, mas também muito que não o explique… É verdade que tivemos uma ditadura católico-conservadora de direita durante 48 anos, é verdade que no período revolucionário pôs-25/4 (PREC) os partidos de Esquerda e os sindicatos ganharam uma força brutal, é verdade que ainda hoje o País é pobre e que aqui os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, é verdade que os Portugueses não gostam de mudar (talvez pela herança "católico-conservadora" sejam isso mesmo: conservadores). Tudo isso não é mentira, mas também não o é o facto de: a ditadura já lá ir há 37 anos (!), o PREC só deixar saudades aos que nele se envolveram, Portugal ser um País europeu (e não sul ou centro-americano), os Portugueses terem uma vida confortável ainda assim, a Lusitânia não ser um “reino” industrial, dos operários explorados e oprimidos, novamente etc., etc..

Nas últimas Legislativas (5/6), a “verdadeira Esquerda” teve uma derrota estrondosa: perderam votos, perderam deputados, perderam força. A mensagem “não passou”; ou não podia passar, tal era (é) a sua inexequibilidade. Barafustaram contra o acordo da troika, sem sequer o terem negociado, mas não disseram, porque não sabiam (sabem), o que fariam se governassem (em ficção) para resolver o problema de liquidez da nossa Economia. Em rigor, percebe-se a estratégia: aquela gente estará sempre condenada a protestar, e não a governar, pelo que não precisam de apresentar, apenas e só de rejeitar. Apesar de tudo (resultados eleitorais, “manifesto entregue” pelo eleitorado a esses partidos…), PCP e BE continuam na mesma cega-rega: não perceberam o sinal dos tempos, persistindo na “luta”. Pior que isso, não reconheceram a derrota (ao melhor estilo democrático, como tanto apregoam…), não tiraram ilações. Estão condenados a sucumbir à sua interna podridão. Não há hipótese…

Cá, PC e Bloco acusam (com razão) PSD e PS de alternarem no jogo de poder, de serem parasitas, de só pensarem nos seus interesses, de cortarem no que “não lhes custa”. Mas, se olharmos ao que acontece nos dois conjuntos de partidos (bloco da Esquerda e bloco central), chegamos sem grande esforço àquele ditado: “bem prega o frei Tomás,…”!
Se formos comparar a dimensão do debate interno nos dois blocos, podemos tirar ilações do que seria Portugal se este fosse entregue a trotskistas ou estalinistas. Sim, porque por baixo da capa indefinida “Esquerda”, estão esses fundamentos ideológicos, cujas suas execuções pudemos encontrar em amostra (ou em noção geral) na URSS, noutros tempos, e nalguns persistentes regimes, nos dias que correm.
A diferença de paradigma no que toca ao debate partidário interno pode ser, logo, calculada pelos estatutos dos vários partidos e confirmada, melhor ainda, pela prática corrente dos mesmos. Quando há congressos de PS e PSD, é frequente (embora cada vez menos) assistirmos à dissidência, ao debate, ao confronto, à proposta alternativa (nem que seja pouco alternativa). Para além da acessibilidade a esses encontros, no que ao relato da imprensa diz respeito. Já quando se realizam os conclaves de PCP e BE, muito dificilmente vislumbramos ideias diferentes, oposições internas, moções contrárias, candidaturas múltiplas aos comandos dos partidos, heterodoxias várias ou outros fenómenos comuns nas Democracias. Tudo é igual: as frases, os slogans, os discursos, as palavras; precisamos de uma lupa para achar as diferenças! Já quanto ao acesso dos media, destacam-se os momentos de “discussão” e eleição à porta fechada. Isto sim é transparência e democracia directa!

Muito se pode denunciar os partidos do “centrão” no que respeita ao clientelismo que cerca o sector público, mas também muito se pode induzir, e confirmar, nalgumas situações presentes, que, se PC e BE tomassem o poder, o esquema seria o mesmo, ou pior (é de relembrar que a URSS durou 69 anos – 1,5 vezes o Estado Novo!). Se atentarmos aos “hábitos” das câmaras autárquicas comunistas, inferimos que estas “padecem” de vícios, tão ou mais difíceis de curar do que os daquelas nas “mãos” de PS e PSD (em endividamento, número de trabalhadores autárquicos/habitante, despesas (des)controladas, empresas municipais, populismos, festas e outros foguetórios…; em resumo, má gestão do dinheiro de todos). Algo mais que justifique para os outros fazerem aquilo que eles pregam e não o que eles praticam.

Votação na CDU: sempre a subir!
Mas calma! O ciclo democrático é feito de eleições, em que o Povo possa participar (bem dito). E aí o caso muda de figura (ou não).
Para continuar este passatempo do “descubra as diferenças”, coloco uma questão: alguém se lembra da CDU, desde 1974, ter perdido alguma eleição (uma única que seja)? Nem mesmo quando, em várias Presidenciais, desistiu em favor de outras candidaturas? Nem mesmo quando, em várias Legislativas, não conseguiu capitalizar o descontentamento nos governos socialistas? Nem mesmo quando, a cada eleição, a sua percentagem de votos é sucessivamente menor (ver gráfico) ? Nem mesmo quando, nas Presidenciais de 2001, não atingiu mais do que 5% dos votos? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2009, passou a 5ª força política nacional? Nem mesmo quando, nas Autárquicas de 2009, perdeu 19 câmaras municipais? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2011, não impôs o discurso anti-troika (“interna” e “externa”), nem sequer aproveitou a redução da votação (para metade) do seu vizinho Bloco de Esquerda? Ninguém se lembra?! Nos tempos que atravessamos, precisamos de gente sem temores, imbatível. Não precisamos de procurar muito: está no nosso Parlamento!

Mas, para que a "inveja" não se apodere das outras hostes esquerdistas, o mesmo se aplica a elas. Um e o mais elucidativo exemplo disso foi a reacção do Coordenador da Mesa Nacional do BE (que, noutro partido, tem a original designação de “Secretário-Geral” ou “Presidente”) aos mandatos que o Povo lhe decidiu atribuir nas Legislativas’11. Recorde-se que o Bloco obteve 5,2% dos votos (em 2009, havia obtido 9,8%) e apenas elegeu 8 deputados (em 2009, haviam sido 16). Em qualquer partido (cuja votação se parta ao meio) que saiba assumir as suas responsabilidades, que o seu projecto político não foi aceite pelo Povo, que o seu discurso (a forma e o conteúdo) (já) não é bem escutado pelo eleitorado e que os seus ideais precisam de uma reforma que o escrutínio popular não pode operar, o “Presidente” ou “Secretário-Geral” demite-se e/ou, no mínimo, pede a convocação de um congresso extraordinário o mais depressa possível, para avaliar esses temas. No Bloco, onde tudo é diferente, a começar pelo nome que se dá ao Congresso (Convenção) e ao Secretário-Geral (Coordenador da Mesa Nacional), nada disto acontece.
Louçã “chutou”, e continua a “chutar”, a sua responsabilidade no resultado alcançado pelo partido para o “grande debate interno”, sem se notar qualquer reforma na orientação política, mudança na estrutura directiva (quase a mesma desde a fundação) ou ajuste no discurso, passados que estão seis meses do inquérito universal. E nem o facto de alguns militantes terem vindo criticar a postura do seu líder, demove Louçã da sua (perpétua) estratégia: manter-se no “poder”. São, nesse ponto, conhecidas as opiniões de Daniel Oliveira (um dos militantes que colhe mais simpatias nas outras Esquerdas e Direitas), a renúncia de Miguel Portas ao cargo de membro da Mesa (lá vem outra vez a “Mesa”) e as dissidências de Rui Tavares (embora este seja independente). Para aqueles que, como Louçã, defendem a “revolução permanente”, não mudar nada ao fim de 13 anos de vida partidária, ainda para mais depois de uma brutal queda eleitoral, parece-me muito boa prática. De facto, “não há nada mais prático do que uma boa teoria”!
Talvez a origem deste tipo de comportamentos e na essencial e aparente desagregação interna do Bloco esteja na contradição entre o(s) seu(s) fundamento(s) ideológico(s), a arrogância política e a prática pessoal dos militantes e simpatizantes do partido (desde a base ao topo). Talvez…

É óbvio que nada disto legitima qualquer medida que o “centrão” partidário decida aplicar. Os unanimismos nunca fizeram bem a sociedade alguma, e a Esquerda sabe-o melhor que muitos. Mas, para se ser oposição, é preciso ter o telhado em condições para que, quando se atirar pedras ao ar, elas não caiam na própria casa.
O que me irrita na Esquerda portuguesa é o modelo social que preconizam. Claro que, sem essa "diferença", não seriam Esquerda, mas “Direita”, misturada no rebanho do “neo-liberalismo”. Contudo, esses utópicos sabem que a sua “sociedade ideal” não é possível (burocracia, insustentabilidade financeira, paralisia económica e social,…). Sabem-no por experiência prática. As externalidades e efeitos secundários da sua “luta” estão visíveis na História (e no presente) e pagaram-se caro à Humanidade em guerra, fome, miséria, infelicidade.
Juntando-se a esta minha “irritação”, vem uma outra mais palpável, audível. O “verbo inflamado”, a raiva no discurso, o ressabiamento no way of speaking. Por ventura será por esta “pele de galinha” que a Esquerda está em crise. A irritação não é só minha, pelos vistos. Essa é a parte mais sensível da tal “podridão”. Nada melhor que o explique.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Grupos de pressão: Igreja


A troika da pressão: "unidos venceremos" (quem?) !


Numa altura em que os seres bem pensantes da nossa Praça esperneiam por “alargados consensos”, com razão, devem esses “seres” ter em conta que «neste momento existem três forças com Poder real, em Portugal, independentemente das forças políticas representadas no Parlamento: a Igreja Católica, o PCP e a Maçonaria. Estas “forças” são auto-exclusivas entre si, e cada uma tenta não se deixar infiltrar pelas outras» (bem-dito Brandão Ferreira). Isso explica em toda a medida a inoperância da nossa Democracia, no que concerne às reais e necessárias medidas a tomar.

A aliança PSD-CDS, mal ou bem, está a tentar mexer no que é necessário. E não está a conseguir. Melhor: não vai conseguir.
Neste colete-de-forças que impede a prossecução das políticas mais frutuosas para todos (incluindo para os seus detractores), os três grupos de pressão instalados bloqueiam e bloquearão a acção de quem tentar o Bem.
Contudo, contrariamente ao que seria de supor, e ao que se verificou até há poucos meses, as três casas de compadrio aproximam-se hoje mais que nunca para defender as suas lides. Só assim se explica como Carvalho da Silva venha clamar por maior justiça social, invocando a “Doutrina Social da Igreja” e a própria Igreja Católica se junte ao Bloco de Esquerda no repúdio do OGE’12 que, embora brutal, e criticável claro, é inevitável no geral, e todos o sabem, incluindo a própria Sé.
Todavia, não é fundamentalmente contra o OGE que a Igreja está, não contra a sua previsível relevância num ano de enorme pobreza e necessidade assistencialista óbvia. Mas antes contra o que aí vem.

Perante a dessacralização natural de Portugal, o Patriarcado vê-se a braços com a perda de influência política, de tal maneira que já nem o CDS-PP, partido cristão de origem, se aconselha na agenda política de D. José Policarpo. É por isso que os subsídios às misericórdias vão diminuir e que os feriados religiosos vão acabar, senão pelo menos fortemente diminuídos. Ninguém quer sacrifícios, muito menos a Igreja. O desespero é inevitável, e a crítica, uma consequência disso.
Perante isto, numa lógica de contra-ponto, força de bloqueio e intimidação, reparámos que distintos eclesiásticos da Sé portuguesa se juntaram a dinossauros da Esquerda lusitana numa “manifestação”, primeiro, contra a “insensibilidade social” de Passos e de Portas e, segundo, em oposição à perda de “qualidade” da “democracia” e dos “serviços públicos”.
A Igreja corre o risco de se descredibilizar. Primeiro, porque sabe, mais que ninguém, os riscos que corre o País se não inverter a trajectória que vinha seguindo. Segundo, porque ao baralhar-se com quem quase não tem semelhança ideológica está a desvirtuar o seu posicionamento político (que o tem). E terceiro, ao alterar posições oficiais, ou semi-oficiais, de ano a ano, ao sabor das conveniências, sobre temas vitais para o País (que disse a Igreja do legado de Sócrates?), está em vias de perder a confiança dos cidadãos, a atenção que estes lhe prestam e o carácter “sábio” que sempre caracterizou as suas intervenções.

Mas pronto, parece que o Patriarcado preferiu seguir aquela máxima de que “se não podes com eles, junta-te a eles”. A Sé não pode nem com as forças da Esquerda, nem de sobremaneira com a Maçonaria. Decidiu juntar-se a elas. Acho que não vai dar bom resultado. É um palpite!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

«De Espanha,...»

Sem nos apercebermos, estamos a “comemorar” mais um feriado.
Sem nos apercebermos, estamos a “festejar” uma pausa anti-espanhola, anti-ibérica, pro-independentista.
Sem nos apercebermos, ninguém liga a estas graças. Ninguém sabe sobre elas, quando foram, para que servem.
Sem nos apercebermos, o “gozo” que nos dá ser anti-espanhóis é o mesmo que nos dá a Imaculada Conceição, que não tarda a chegar.

Férias são férias. Feriados, nem se fala…

domingo, 6 de novembro de 2011

Feriados

Artigo de Vasco Pulido Valente na edição do jornal Público do passado sábado (dia 5 de Novembro):

sábado, 22 de outubro de 2011

Estado de Direito

Deputado arguido eleito para o CEJ
Ricardo Rodrigues vai ser julgado por atentado à liberdade de imprensa. Juízes e procuradores contestam escolha de um arguido para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários.


Ricardo Rodrigues (aquele que palma gravadores a jornalistas em flagrante delito (!), quando estes lhe fazem perguntas não totalmente do seu agrado) foi nomeado para o Conselho Geral do CEJ, com o acordo dos partidos com assento parlamentar.
Nada melhor do que um gatuno (para além de outras coisas – um tipo que ainda tem, e não "teve", problemas com a Justiça) para um órgão do Centro onde se formam juízes e magistrados.

Brilhante conluio partidário e o progresso do Estado de Direito ao virar da esquina...

domingo, 16 de outubro de 2011

Fado, Futebol ou Fátima?

A propósito da re-calendarização dos feriados (com a qual concordo, mas por razões bastante diferentes das que motivam o Governo), dei-me ao trabalho (não muito) de elencar os dias de repouso por motivos religiosos, e tirei uma conclusão interessante.
Lá muito no meio de “Todos os Santos”, do “Corpo de Deus”, da "Assunção de Maria" (ou da Maria da Assunção) e da "Imaculada Conceição" – ou, resumindo, do Corpo Imaculado de Conceição que parece dum Deus e que agrada a Todos os Santos, inclusive à Maria da Assunção (!) –, juntando-lhes umas “Agonias” espalhadas por esses Concelhos, descobri… um Estado laico, uma Sociedade onde «ninguém é privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de (...) religião [que segue]» (in «Constituição de Abril» – art. 13º, n.º 2).
Precisei de inspiração divina, mas lá encontrei!

domingo, 31 de julho de 2011

Velhas Oportunidades para a nossa (re-)Educação

  
A propósito desta “coisa” das “Novas Oportunidades”, do “copianço” no CEJ, dos tão brilhantes, quão repetitivos, resultados dos exames nacionais do ensino primário e secundário e do desemprego de milhares de jovens licenciados e cérebros deste Portugal, apraz-me buscar as causas para estes fenómenos.

Por todos é reconhecido, tal como fiz referência no texto Uma Política cheia de tudo. Uma Assembleia cheia de nada., a mudança de valores verificada na nossa sociedade, decorrida do passar dos tempos e comum a outros países do “mundo desenvolvido”. Essas mudanças tiveram um mais imediato e outro mais distanciado efeito sobre a população jovem (que se está a formar para substituir os pais e avós nos seus próprios destinos e nos do País), contribuindo em boa e má conta para a formação física, intelectual e moral dessa franja etária.
Hoje, as famílias são mais pequenas, têm cada vez menos crianças e os adultos são pais mais e mais tarde, por força da formação superior e da procura de emprego que tarda em satisfazer os critérios da estabilidade. São em cada vez maior número os agregados monoparentais e com um só filho. Os adultos são sujeitos a cargas horárias de trabalho que lhes “comem” quase todo o dia, para lá do pouco dinheiro que ganham. Acrescenta-se ao stress causado pelo chefe no emprego, os afazeres em casa, depois do primeiro. Somando tudo, dá um estado de muita impaciência e difícil de aturar “putos” cheios de energia, e de irreverência às vezes! Em consequência do pouco tempo disponível para os “piquenos”, estes são depositados em frente ao ecrã, a comer bolachas, enquanto a mãe, ou o pai, cozinham o jantar; ou então, alternando, quando a força e a necessidade são maiores, depositados em frente ao caderno, sem grande apoio pedagógico, ou com o possível tendo em conta todas as tarefas anteriores dos progenitores. Amalgamando tudo, não pode dar coisa boa: a veia da intolerância e rabugice passa alegremente para as crianças, a do esforço e trabalho fica pelo caminho.
“O pepino é mal torcido desde pequenino”, quero dizer, a educação que os pais de hoje prestam aos de amanhã não é seguramente, nem podia ser de maneira nenhuma, a que os pais de ontem deram aos de hoje. Não pode, porque a sociedade é “outra”: o regime (português) mudou, as coisas são diferentemente vistas, as pessoas têm menos tempo umas para as outras, a religiosidade entre nós atenuou-se, o culto está hoje na pessoa (na pessoa-criança, especialmente) e no material, no virtual, no fictício.
 
IEFP - Iludimos os Esperançados num Futuro em Portugal

Como se não bastasse uma sociedade pouco “interessada” em educar os seus filhos, a política vem “ajudar à missa”. Prova disso é o sistema de educação que hoje temos. Não renego os avanços verificados no Portugal democrático pela maior amplitude do acesso ao ensino, mas todos concordamos que o sistema montado não capacita os jovens para enfrentar os desafios da vida, e até se configura como elitista: o facto de a escola pública estar carente de meios, disciplina e exigência e organização leva os jovens-ricos à procura das escolas privadas (com notória vantagem comparativa face ao conjunto das primeiras). Aglutina-se a isto as teorias do “eduquês” – «o deixar desenvolver o jovem sem a interferência tiranizante do indivíduo adulto» (ver O «eduquês» em Discurso Directo: Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista, Nuno Crato, Gradiva, 2006) –, que imobilizam as capacidades de crítica, de memorização, de auto-disciplina e trabalho, de perseverança e paciência dos jovens portugueses. Acrescenta-se ainda o materialismo na Educação (como são exemplo os “Magalhães”) e a ausência de planos de leitura obrigatórios nos cursos de línguas na formação escolar. Tudo isto “obra e graça” dos sucessivos governos desta democracia que, na vanguarda da “educação progressista”, não se deram ao trabalho de “parar para pensar”, preferindo o conforto do “quanto mais tarde [a reforma do sistema] melhor” ou do “quanto mais dinheiro [no sistema] melhor”. O resultado é o que se vê e segue!

Um dos mais acabados exemplos desta política educativa errónea são as “Novas Oportunidades”. O programa em questão só traz mesmo “novas oportunidades” ao nome que tem, porque aos que ele frequentam oferece pouco mais que ilusão. Constitui, porventura, um crime a acreditação de mais e menos jovens a torto e a direito, valendo para a obtenção do diploma pouco mais que a assiduidade às sessões dos cursos oferecidos. É um crime, não porque as pessoas não tenham "direito e prazer em estudar" e "saber mais" e “regressar à escola”, nem sequer pelo “risco” de termos “literatos a mais” em Portugal; mas antes porque se quer fazer querer aos frequentadores que três semanas nas “Novas Oportunidades” equivalem a três anos no Ensino Secundário, porque os conhecimentos lá "adquiridos" não se revelam nem úteis nem suficientes para desafiar no mercado de trabalho, porque a diplomação feita não corresponde aos efectivos conhecimentos dos alunos do programa.
Sendo assim, não nos admiremos dos problemas de inclusão social, estrutura mental e preparação para a vida activa da geração jovem (que, por sinal, é a minha).
CEJ - Cultivamos a Ética Juvenil

Não constitui por isso surpresa, ou não devia constituir, o episódio do “copianço geral” no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). É bom lembrar que não estamos a falar de uma cena numa qualquer EB23 ou mesmo numa Secundária (que, mesmo aí, seria grave); estamos pois a lidar com licenciados em Direito que frequentam um curso de elite de formação de magistrados (juízes e investigadores do Ministério Público), cujas funções a desempenhar são nevrálgicas no Estado de Direito Democrático que formamos – integrarão um dos órgãos de soberania da República – a Justiça e os Tribunais. Seria suposto exigir aos futuros “Sr.s Juízes” e "Sr.s Magistrados" que se pautassem pelos mais cuidados critérios de honestidade e integridade; mas, pela solução que a direcção do CEJ encontrou para “resolver” o caso, só posso mesmo [infelizmente] exclamar “estão bem uns [direcção do CEJ] para os outros [alunos do mesmo]”! Repara-se que os decisores (os de primeira instância – direcção do CEJ – e os de última – deputados e governantes) não se mostram muito incomodados e preocupados com o assunto. Afinal, quem nunca copiou nos exames?!

Os resultados dos exames nacionais são outro dos mais visíveis e mensuráveis efeitos da política educativa. A esse propósito, eles não são famosos! É ainda mais intrigante a diferença estabelecida entre as notas atribuídas pelo professor na avaliação contínua escolar e aquela dada pelo corrector do exame nacional, a cada disciplina. Esta “inflação” torna impossível uma comparação histórica credível: quanto vale um "16" hoje comparado com outro de há três décadas? Ainda para mais, é reconhecidamente diminuído o nível de exigência praticado nessas provas, sendo algo que me conduz à interrogação: quais seriam os resultados dos exames, e a diferença entre estes e as notas da referida avaliação contínua, se as provas nacionais avaliassem realmente os conhecimentos de todos os estudantes necessários à matéria respectiva? A resposta permitiria-nos avaliar o estado do nosso sistema educativo. Mas ela não existe. Há muito que mudar!

A consequência futura das medidas tomadas no sector formativo é o desemprego juvenil. Já hoje, esse problema é dramático. Não só nesse escalão etário, mas muito particularmente nele. Segue-se inevitavelmente a emigração dos jovens desempregados, muitos deles (ou alguns deles) com ideias, sentido empreendedor e experiência ao melhor nível mundial. Um desperdício geracional. Um sinal dos tempos.

A política do “não desagradar o Povo” deu e dá no que se viu e continuará a ver. Como se montar um sistema educativo exigente, que não se foque apenas nos momentâneos resultados dos exames nacionais (mas que os torne efectivos medidores das capacidades dos alunos), mas tão-somente em tendências de longo prazo e em reformas duradouras, fosse “desagradar o Povo”. Essa construção não tem de implicar o retrocesso do que foi conseguido em democracia: liberdade universal do acesso ao ensino. É preciso um acordo político total, sob pena de mais e mais miséria e dependência no futuro, à custa da má preparação da geração de hoje e das ilusões criadas por esta ao frequentarem cursos superiores de pouco valor prático.
A vida é só uma. Não se pode pôr no lixo uma geração, dizendo-lhe que se está a colocá-la num resort de luxo. Se a política educativa for verdadeiramente progressista, a sociedade será mais saudável, autónoma e esforçada, terá menos filhos irreverentes e egoístas e tornará possível o progresso com base na energia dos seus jovens. Cabe tudo nas mãos dos governantes. Portugal agradeceria melhores práticas, o Resto do Mundo também!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma Política cheia de tudo. Uma Assembleia cheia de nada.

AR: onde os deputados passam o Inverno
Começo esta travessia da publicação opinativa, dissertando sobre o estado da “freguesia” política e da “casa” da democracia/de todos.
Durante estes anos, ou quem preferir, durante estas décadas, temos sido levados para um beco de difícil saída. Ou melhor, verdadeiramente na nossa História, pese embora a glória a que se lhe associa e os orgulhosos feitos nela verificados, fomos não raras vezes conduzidos pelo esbanjamento “novo-riquista”, prepotência e falta de visão dos nossos governantes (salvo muito estimadas excepções). Esta é a nossa idiossincrasia e daqui não saímos: lá se diz que os portugueses trabalham bem quando são governados e mal quando se governam. É bem capaz de ser verdade!
Mas, excluindo esta reflexão histórica que não nos leva a sítio algum, porque História que é História não se muda, foquemo-nos nos últimos anos, ou quem preferir, nas últimas décadas. A este respeito, o panorama é negro e confirma, ponto a ponto, o Passado anteriormente verificado. É, por isso, irónico que o período em que o País conheceu maior estabilidade política, financeira, económica, embora à custa da liberdade, igualdade e desenvolvimento social, tenha sido aquele do século XX que vivemos sob ditadura. Analisando: na democracia, desde 1974: já pedimos ajuda financeira externa três vezes, o crescimento económico (tirando o empurrado pelos Fundos de Coesão e o alcatroamento de lês-a-lês) é decrépito, as áreas económicas de especialização são de difícil vislumbramento, desapareceram as cinturas industriais das metrópoles e fecham cada vez mais fábricas, na agricultura a produção nacional não vinga cá dentro e não é competitiva lá fora (salvo poucos mas bons ramos desse sector), a corrupção e o clientelismo são “lapa na rocha”… – Portugal transformou-se numa sociedade de serviços, no “reino” dos call centers. Se formos por aqui, a Democracia não deixa muitas saudades… Não quero com isto fazer a apologia do Salazarismo, que deixou um País apático, “chorão” e ignorante, mas fria e coincidentemente foi nele que conhecemos os tempos áureos do crescimento e a consistência das finanças públicas que hoje tanto almejamos.
Indo à raiz valorativa da nossa comunidade, a par do que se verifica noutros lugares, ela também se alterou profundamente. A “sociedade do consumo” em que nos inserimos, tornou-nos “homens-máquina” egoístas, materialistas, desesperançados, mentirosos… – no fundo, pouco “religiosos”.
Seguindo esta tendência, na política passa-se o mesmo.
Primeiro, trouxe sede de poder e de dinheiro de grupos económicos e de facções sociais e partidárias: Os políticos rodam entre si de quatro em quatro anos, esvaziando e enchendo o aparelho do Estado de boys e girls que por serem do grupo A ou B, e não por terem a formação A ou B ou o mérito A ou B, têm a benesse mensal de 5000€ ou 10000€… ou 30000€… ou… numa empresa pública, numa direcção-geral… Os eleitos parlamentares e autárquicos não representam os eleitores, por conseguinte, os eleitores não se sentem representados pelos eleitos – a estes últimos compete-lhes agradar ao chefe partidário que os (re-)nomeiam para listas candidatas à AR, autarquias ou outros cargos públicos, pelo que quanto menos “derem nas vistas” e mais “calados” estiverem melhor. As grandes holdings cercam os grandes partidos, financiando-os encapotadamente, entranhando-se nestes com representantes nas suas direcções e, por consequência, nas funções políticas. As redes de interesse e as organizações “discretas”, como a Maçonaria, dominam o Estado, dele dependem e de si fazem depender as decisões políticas tomadas: ou, por um lado, os governantes pertencem a esses grupos; ou, por outro, se não pertencem sentem-se intimados a consultar as “opiniões” de quem pertence, pela força que estes últimos têm na sociedade e pelos benefícios futuros que aqueles podem tirar se agradarem a estes “companheiros”.
Segundo, tal como a sociedade, a política tornou-se “de consumo”. O vírus da mentira alastrou-se, sendo hoje poucos os políticos que põem a verdade acima dos interesses eleitoralistas partidários. A esse respeito, os últimos seis anos de governo foram paradigmáticos: um (ex-)primeiro-ministro que mentia desavergonhadamente, sem ética nem moral, criminoso, até, na maneira de gerir a propriedade colectiva de aumentar a propriedade privada, sua e dos seus íntimos (em dinheiro, influências, “papeis”, etc.). Mas não só o anterior se infectou com essa peste: também o actual primeiro-ministro, embora num grau notoriamente mais reduzido, desdisse-se e, para variar de paradigma (!), aumentou os impostos logo que pôde – a contradição não está em aumentá-los (algo que nos políticos é relativamente previsível, pelo que a sua promessa de não aumento não constitui juramento credível), nem sequer na falta de coerência em Passos Coelho (PPC – que, em poucos meses, dias, horas consegue dizer o exacto oposto do que julgava “pensar” anteriormente sobre um assunto – deve-se, ainda assim, ressalvar o facto do ziguezague de PPC se revestir dum carácter não tão premeditado como acontecia com Mr. José…); a causa é antes a humilde e visceral falta de preparação, e inteligência, até, para exercer cargos públicos, não obstante das boas intenções que nele se notam. A análise desta prática pode ainda expandir-se aos brilhantes antecessores José Manuel, António, Aníbal e Mário, mas, francamente, isso tornar-se-ia aborrecido, monótono e desinteressante...
Com todo este iluminado quadro de competência, seriedade e honestidade, altruísmo e serviço cívico, não espanta que o Parlamento (suposta “casa da Democracia", representativa do Povo, dos seus interesses, anseios e preocupações) seja cada vez mais visto com descrédito e desprimor. Para mais, assiste-se à quebra geral, “geral” em todas as bancadas, da qualidade dos deputados: ou pelo abandono voluntário de “históricos” que representavam o melhor (ou o mais razoável…) do serviço ao Estado; ou pelo abandono forçado de outros que não agradam às direcções partidárias, e que não se agradam com os lideres que têm.
Neste sentido, é de notar no PSD, para exemplificar, um êxodo de gente comprovadamente capaz e não tão “pegada” aos interesses “mundanos”: enumerando, são exemplos a Dr. Ferreira Leite e o Dr. Pacheco Pereira que, apesar dos seus feitios e momentâneos falta de senso, acrescentavam saber, verdade e rigor. Histórias semelhantes poderão ser encontradas na bancada do PS, onde também se verificou um “refrescamento” dos seus constituintes, ocorrendo-me os nomes de Jaime Gama e Vera Jardim (embora estes apenas por gozarem da respeitável condição de “idosos”). Noutro patamar, mas não menos relevante, são de lamentar as ausências de Maria José Nogueira Pinto e José Manuel Pureza. A primeira de inigualável inteligência, serviço aos outros e crença em Portugal ainda há pouco nos deixou, tendo partido para outro lugar (onde certamente estará em paz…), fixando um vazio que já hoje se nota. O segundo não conseguiu ser reeleito pelas listas do BE, partido com a qual tenho poucas ou nenhumas semelhanças, mas a ele reconhecia competência, contributo e não tão fácil antipatia (como verificamos em alguns dos seus colegas da “Mesa”) que, por ora, ficam descurados com os passados resultados eleitorais.
Acentuando esta crítica, podemos avaliar as figuras que hoje nos são “referência”. Nesse contexto, chegamos ao Palácio de Belém, onde mora o político português mais "dinossauro", medonho e mesquinho: Mr. Cavaco de seu nome que já anda nestas “aldeias” faz mais de 30 anos (embora se tenha sempre considerado um “mero professor universitário”), um verdadeiro político "de corredor", provinciano, que, diga-se em abono da verdade, representa bem o “ser português”.
Com isto nos vamos governando, ora mais à esquerda ora mais à direita, ao sabor das marés e tempestades que nos colhem. Revezam-se os políticos e revezamo-nos nós pelo avançar das gerações…