escarafunchando no baú...

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Policontradições

O cardeal Policarpo veio, por estes dias, indignar-se que os maçons, a Maçonaria não se deve envolver com a política.

De partida, concordo. Deixo-o aqui claro.
Anda por aí muita gente a falar do assunto nos media, alguns com grande pele de galinha (caso dos pedreiros-"livres"), outros com não menos que muita ingenuidade (quem se está a “borrifar” para a temática). Eu não estou nem uma nem outra coisa. Simplesmente permaneço no mesmo estado de antes relativamente a estas matérias: profundo repugno por semelhantes Ordens. (O termo "Ordens" tem toda a pertinência, bem contrariando a ideia de liberdade de acção e pensamento, em vários domínios, que se quer fazer parecer)
Sobre a assumpção (ou não) dessas "solidariedades" por parte dos titulares de cargos públicos? Como é óbvio, se um deputado tem de afirmar, por escrito, no seu registo de interesses, as ligações que tem a uma sociedade empresarial, por questões de conflito de interesses, porque que raio não há-de um maçom, exercendo semelhantes cargos, não assumir uma ligação secreta, se isso vier a prejudicar, como tem prejudicado, a transparência e a ética das decisões que toma?
E mais: julgo que essa deveria ser uma prática alargada também aos cargos privados. Qual é o nexo em manter sigilo da ligação a uma irmandade dessas, senão vivemos numa ditadura? Se a transparência deve ser soberana e a concorrência entre pares justa? Se todos são livres de terem os “amigos” e os “irmãos” que quiserem? Apregoam aí pela “meritocracia” e pela “mobilidade social”, e depois são capazes de defenderem, com unhas e dentes, mais do que a “meritocracia” e igual “mobilidade”, que a “democracia” se compagina com jogos de interesse, lutas de poder entre sociedades secretas e carreirismos paralelos!

Bom, mas não foi por isto que o cardeal veio opinar. Tomo a liberdade de prosseguir, perguntando inocentemente, não obstando o que escrevo acima: Que género de coisa está a fazer o cardeal, quando vem dizer que os maçons (de origem anti-católica, por sinal) não se devem baralhar com a governança da Nação? Será que à Igreja não tem interessado o que faz ou deixa de fazer a decisão política? E que nobreza separa os maçons dos católicos para que aqueles, em oposição a estes, sejam afastados de tal intervenção?
O Criador estabeleceu a igualdade entre os homens. Mas ao mesmo tempo impôs que uns fossem mais iguais que outros. Isto, claro, um enviesamento interpretativo.
De facto, ao cardeal, parece-me atacar uma inveja incessante, pela perda gradual de influência da Sé nas esferas do poder, face à intervenção maçónica, em sentido contrário à secular ligação (e promiscuidade) que o Estado sempre desenvolveu com Ela. Uma ultrapassagem agressiva pela Esquerda.
Tudo para lá do ódio histórico que se conhece entre os dois grupos-força.
E tanto este como aquela "pecados originais" dos mandamentos bíblicos.

Interessante de seguir…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Grande Ocidente Lusitano


Anda por aí grande agitação acerca da Maçonaria. Descobriram-na. Parabéns!
Foi preciso chegar-se tão tarde para (começarem a) perceber os nefastos efeitos que as sociedades secretas têm produzido nas Democracias. Na nossa, particularmente. Aliás, pergunto-me, tal como fez Sousa Tavares: porque carga de água existem "sociedades secretas" se a “democracia” em que estamos vai sendo livre e transparente? Que escondem?
Escondem os interesses económicos, sociais, políticos. Escondem os negócios, as vigarices, a corrupção, o tráfico de influências. Escondem a chulice ao Estado, o compadrio, os favorecimentos nos casos judiciais, os arranjos nos ajustes directos, ... Percebe-se.
O que não se percebe é como foi possível passar-se tanto tempo sem que (quase) ninguém se tenha apercebido do que se denomina por "bloco central" mais não é que o jogo em que a Maçonaria participa. O que não se realiza é como tenha sido possível passarem-se tantas legislaturas sem que estas questões tenham sido decentemente enquadradas na Lei. O que não se entende é como andam os partidos há décadas nesta cega-rega, deixando-se infiltrar por esta gentalha, sem alcançarem o perigo que ela traz para o seu futuro e o da própria “democracia”.
Ou melhor, talvez se perceba, realize e entenda, já que falamos de "secretas" e da mesma gentona que tomou as rédeas do tal "bloco" desde sempre...

PS: Para mais, ler os esclarecedores textos de Franciso Fonseca e de Daniel Oliveira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Olha para a esquerda, e pisca-pisca!


O concílio de "Estaline" e "Trotsky": já se falam!


Portugal é diferente no Mundo em muita coisa: pela sua História, pela sua gente, pela sua paisagem, pela sua comida, pela “sua” meteorologia, etc., etc.. Também na política este País se destaca do Resto do Mundo, ou, no mínimo, do Resto da Europa. Um dos melhores exemplos disso é o peso comparativo da Esquerda-radical.
Há muito que explique esse fenómeno, mas também muito que não o explique… É verdade que tivemos uma ditadura católico-conservadora de direita durante 48 anos, é verdade que no período revolucionário pôs-25/4 (PREC) os partidos de Esquerda e os sindicatos ganharam uma força brutal, é verdade que ainda hoje o País é pobre e que aqui os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, é verdade que os Portugueses não gostam de mudar (talvez pela herança "católico-conservadora" sejam isso mesmo: conservadores). Tudo isso não é mentira, mas também não o é o facto de: a ditadura já lá ir há 37 anos (!), o PREC só deixar saudades aos que nele se envolveram, Portugal ser um País europeu (e não sul ou centro-americano), os Portugueses terem uma vida confortável ainda assim, a Lusitânia não ser um “reino” industrial, dos operários explorados e oprimidos, novamente etc., etc..

Nas últimas Legislativas (5/6), a “verdadeira Esquerda” teve uma derrota estrondosa: perderam votos, perderam deputados, perderam força. A mensagem “não passou”; ou não podia passar, tal era (é) a sua inexequibilidade. Barafustaram contra o acordo da troika, sem sequer o terem negociado, mas não disseram, porque não sabiam (sabem), o que fariam se governassem (em ficção) para resolver o problema de liquidez da nossa Economia. Em rigor, percebe-se a estratégia: aquela gente estará sempre condenada a protestar, e não a governar, pelo que não precisam de apresentar, apenas e só de rejeitar. Apesar de tudo (resultados eleitorais, “manifesto entregue” pelo eleitorado a esses partidos…), PCP e BE continuam na mesma cega-rega: não perceberam o sinal dos tempos, persistindo na “luta”. Pior que isso, não reconheceram a derrota (ao melhor estilo democrático, como tanto apregoam…), não tiraram ilações. Estão condenados a sucumbir à sua interna podridão. Não há hipótese…

Cá, PC e Bloco acusam (com razão) PSD e PS de alternarem no jogo de poder, de serem parasitas, de só pensarem nos seus interesses, de cortarem no que “não lhes custa”. Mas, se olharmos ao que acontece nos dois conjuntos de partidos (bloco da Esquerda e bloco central), chegamos sem grande esforço àquele ditado: “bem prega o frei Tomás,…”!
Se formos comparar a dimensão do debate interno nos dois blocos, podemos tirar ilações do que seria Portugal se este fosse entregue a trotskistas ou estalinistas. Sim, porque por baixo da capa indefinida “Esquerda”, estão esses fundamentos ideológicos, cujas suas execuções pudemos encontrar em amostra (ou em noção geral) na URSS, noutros tempos, e nalguns persistentes regimes, nos dias que correm.
A diferença de paradigma no que toca ao debate partidário interno pode ser, logo, calculada pelos estatutos dos vários partidos e confirmada, melhor ainda, pela prática corrente dos mesmos. Quando há congressos de PS e PSD, é frequente (embora cada vez menos) assistirmos à dissidência, ao debate, ao confronto, à proposta alternativa (nem que seja pouco alternativa). Para além da acessibilidade a esses encontros, no que ao relato da imprensa diz respeito. Já quando se realizam os conclaves de PCP e BE, muito dificilmente vislumbramos ideias diferentes, oposições internas, moções contrárias, candidaturas múltiplas aos comandos dos partidos, heterodoxias várias ou outros fenómenos comuns nas Democracias. Tudo é igual: as frases, os slogans, os discursos, as palavras; precisamos de uma lupa para achar as diferenças! Já quanto ao acesso dos media, destacam-se os momentos de “discussão” e eleição à porta fechada. Isto sim é transparência e democracia directa!

Muito se pode denunciar os partidos do “centrão” no que respeita ao clientelismo que cerca o sector público, mas também muito se pode induzir, e confirmar, nalgumas situações presentes, que, se PC e BE tomassem o poder, o esquema seria o mesmo, ou pior (é de relembrar que a URSS durou 69 anos – 1,5 vezes o Estado Novo!). Se atentarmos aos “hábitos” das câmaras autárquicas comunistas, inferimos que estas “padecem” de vícios, tão ou mais difíceis de curar do que os daquelas nas “mãos” de PS e PSD (em endividamento, número de trabalhadores autárquicos/habitante, despesas (des)controladas, empresas municipais, populismos, festas e outros foguetórios…; em resumo, má gestão do dinheiro de todos). Algo mais que justifique para os outros fazerem aquilo que eles pregam e não o que eles praticam.

Votação na CDU: sempre a subir!
Mas calma! O ciclo democrático é feito de eleições, em que o Povo possa participar (bem dito). E aí o caso muda de figura (ou não).
Para continuar este passatempo do “descubra as diferenças”, coloco uma questão: alguém se lembra da CDU, desde 1974, ter perdido alguma eleição (uma única que seja)? Nem mesmo quando, em várias Presidenciais, desistiu em favor de outras candidaturas? Nem mesmo quando, em várias Legislativas, não conseguiu capitalizar o descontentamento nos governos socialistas? Nem mesmo quando, a cada eleição, a sua percentagem de votos é sucessivamente menor (ver gráfico) ? Nem mesmo quando, nas Presidenciais de 2001, não atingiu mais do que 5% dos votos? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2009, passou a 5ª força política nacional? Nem mesmo quando, nas Autárquicas de 2009, perdeu 19 câmaras municipais? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2011, não impôs o discurso anti-troika (“interna” e “externa”), nem sequer aproveitou a redução da votação (para metade) do seu vizinho Bloco de Esquerda? Ninguém se lembra?! Nos tempos que atravessamos, precisamos de gente sem temores, imbatível. Não precisamos de procurar muito: está no nosso Parlamento!

Mas, para que a "inveja" não se apodere das outras hostes esquerdistas, o mesmo se aplica a elas. Um e o mais elucidativo exemplo disso foi a reacção do Coordenador da Mesa Nacional do BE (que, noutro partido, tem a original designação de “Secretário-Geral” ou “Presidente”) aos mandatos que o Povo lhe decidiu atribuir nas Legislativas’11. Recorde-se que o Bloco obteve 5,2% dos votos (em 2009, havia obtido 9,8%) e apenas elegeu 8 deputados (em 2009, haviam sido 16). Em qualquer partido (cuja votação se parta ao meio) que saiba assumir as suas responsabilidades, que o seu projecto político não foi aceite pelo Povo, que o seu discurso (a forma e o conteúdo) (já) não é bem escutado pelo eleitorado e que os seus ideais precisam de uma reforma que o escrutínio popular não pode operar, o “Presidente” ou “Secretário-Geral” demite-se e/ou, no mínimo, pede a convocação de um congresso extraordinário o mais depressa possível, para avaliar esses temas. No Bloco, onde tudo é diferente, a começar pelo nome que se dá ao Congresso (Convenção) e ao Secretário-Geral (Coordenador da Mesa Nacional), nada disto acontece.
Louçã “chutou”, e continua a “chutar”, a sua responsabilidade no resultado alcançado pelo partido para o “grande debate interno”, sem se notar qualquer reforma na orientação política, mudança na estrutura directiva (quase a mesma desde a fundação) ou ajuste no discurso, passados que estão seis meses do inquérito universal. E nem o facto de alguns militantes terem vindo criticar a postura do seu líder, demove Louçã da sua (perpétua) estratégia: manter-se no “poder”. São, nesse ponto, conhecidas as opiniões de Daniel Oliveira (um dos militantes que colhe mais simpatias nas outras Esquerdas e Direitas), a renúncia de Miguel Portas ao cargo de membro da Mesa (lá vem outra vez a “Mesa”) e as dissidências de Rui Tavares (embora este seja independente). Para aqueles que, como Louçã, defendem a “revolução permanente”, não mudar nada ao fim de 13 anos de vida partidária, ainda para mais depois de uma brutal queda eleitoral, parece-me muito boa prática. De facto, “não há nada mais prático do que uma boa teoria”!
Talvez a origem deste tipo de comportamentos e na essencial e aparente desagregação interna do Bloco esteja na contradição entre o(s) seu(s) fundamento(s) ideológico(s), a arrogância política e a prática pessoal dos militantes e simpatizantes do partido (desde a base ao topo). Talvez…

É óbvio que nada disto legitima qualquer medida que o “centrão” partidário decida aplicar. Os unanimismos nunca fizeram bem a sociedade alguma, e a Esquerda sabe-o melhor que muitos. Mas, para se ser oposição, é preciso ter o telhado em condições para que, quando se atirar pedras ao ar, elas não caiam na própria casa.
O que me irrita na Esquerda portuguesa é o modelo social que preconizam. Claro que, sem essa "diferença", não seriam Esquerda, mas “Direita”, misturada no rebanho do “neo-liberalismo”. Contudo, esses utópicos sabem que a sua “sociedade ideal” não é possível (burocracia, insustentabilidade financeira, paralisia económica e social,…). Sabem-no por experiência prática. As externalidades e efeitos secundários da sua “luta” estão visíveis na História (e no presente) e pagaram-se caro à Humanidade em guerra, fome, miséria, infelicidade.
Juntando-se a esta minha “irritação”, vem uma outra mais palpável, audível. O “verbo inflamado”, a raiva no discurso, o ressabiamento no way of speaking. Por ventura será por esta “pele de galinha” que a Esquerda está em crise. A irritação não é só minha, pelos vistos. Essa é a parte mais sensível da tal “podridão”. Nada melhor que o explique.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Grupos de pressão: Igreja


A troika da pressão: "unidos venceremos" (quem?) !


Numa altura em que os seres bem pensantes da nossa Praça esperneiam por “alargados consensos”, com razão, devem esses “seres” ter em conta que «neste momento existem três forças com Poder real, em Portugal, independentemente das forças políticas representadas no Parlamento: a Igreja Católica, o PCP e a Maçonaria. Estas “forças” são auto-exclusivas entre si, e cada uma tenta não se deixar infiltrar pelas outras» (bem-dito Brandão Ferreira). Isso explica em toda a medida a inoperância da nossa Democracia, no que concerne às reais e necessárias medidas a tomar.

A aliança PSD-CDS, mal ou bem, está a tentar mexer no que é necessário. E não está a conseguir. Melhor: não vai conseguir.
Neste colete-de-forças que impede a prossecução das políticas mais frutuosas para todos (incluindo para os seus detractores), os três grupos de pressão instalados bloqueiam e bloquearão a acção de quem tentar o Bem.
Contudo, contrariamente ao que seria de supor, e ao que se verificou até há poucos meses, as três casas de compadrio aproximam-se hoje mais que nunca para defender as suas lides. Só assim se explica como Carvalho da Silva venha clamar por maior justiça social, invocando a “Doutrina Social da Igreja” e a própria Igreja Católica se junte ao Bloco de Esquerda no repúdio do OGE’12 que, embora brutal, e criticável claro, é inevitável no geral, e todos o sabem, incluindo a própria Sé.
Todavia, não é fundamentalmente contra o OGE que a Igreja está, não contra a sua previsível relevância num ano de enorme pobreza e necessidade assistencialista óbvia. Mas antes contra o que aí vem.

Perante a dessacralização natural de Portugal, o Patriarcado vê-se a braços com a perda de influência política, de tal maneira que já nem o CDS-PP, partido cristão de origem, se aconselha na agenda política de D. José Policarpo. É por isso que os subsídios às misericórdias vão diminuir e que os feriados religiosos vão acabar, senão pelo menos fortemente diminuídos. Ninguém quer sacrifícios, muito menos a Igreja. O desespero é inevitável, e a crítica, uma consequência disso.
Perante isto, numa lógica de contra-ponto, força de bloqueio e intimidação, reparámos que distintos eclesiásticos da Sé portuguesa se juntaram a dinossauros da Esquerda lusitana numa “manifestação”, primeiro, contra a “insensibilidade social” de Passos e de Portas e, segundo, em oposição à perda de “qualidade” da “democracia” e dos “serviços públicos”.
A Igreja corre o risco de se descredibilizar. Primeiro, porque sabe, mais que ninguém, os riscos que corre o País se não inverter a trajectória que vinha seguindo. Segundo, porque ao baralhar-se com quem quase não tem semelhança ideológica está a desvirtuar o seu posicionamento político (que o tem). E terceiro, ao alterar posições oficiais, ou semi-oficiais, de ano a ano, ao sabor das conveniências, sobre temas vitais para o País (que disse a Igreja do legado de Sócrates?), está em vias de perder a confiança dos cidadãos, a atenção que estes lhe prestam e o carácter “sábio” que sempre caracterizou as suas intervenções.

Mas pronto, parece que o Patriarcado preferiu seguir aquela máxima de que “se não podes com eles, junta-te a eles”. A Sé não pode nem com as forças da Esquerda, nem de sobremaneira com a Maçonaria. Decidiu juntar-se a elas. Acho que não vai dar bom resultado. É um palpite!