escarafunchando no baú...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma Política cheia de tudo. Uma Assembleia cheia de nada.

AR: onde os deputados passam o Inverno
Começo esta travessia da publicação opinativa, dissertando sobre o estado da “freguesia” política e da “casa” da democracia/de todos.
Durante estes anos, ou quem preferir, durante estas décadas, temos sido levados para um beco de difícil saída. Ou melhor, verdadeiramente na nossa História, pese embora a glória a que se lhe associa e os orgulhosos feitos nela verificados, fomos não raras vezes conduzidos pelo esbanjamento “novo-riquista”, prepotência e falta de visão dos nossos governantes (salvo muito estimadas excepções). Esta é a nossa idiossincrasia e daqui não saímos: lá se diz que os portugueses trabalham bem quando são governados e mal quando se governam. É bem capaz de ser verdade!
Mas, excluindo esta reflexão histórica que não nos leva a sítio algum, porque História que é História não se muda, foquemo-nos nos últimos anos, ou quem preferir, nas últimas décadas. A este respeito, o panorama é negro e confirma, ponto a ponto, o Passado anteriormente verificado. É, por isso, irónico que o período em que o País conheceu maior estabilidade política, financeira, económica, embora à custa da liberdade, igualdade e desenvolvimento social, tenha sido aquele do século XX que vivemos sob ditadura. Analisando: na democracia, desde 1974: já pedimos ajuda financeira externa três vezes, o crescimento económico (tirando o empurrado pelos Fundos de Coesão e o alcatroamento de lês-a-lês) é decrépito, as áreas económicas de especialização são de difícil vislumbramento, desapareceram as cinturas industriais das metrópoles e fecham cada vez mais fábricas, na agricultura a produção nacional não vinga cá dentro e não é competitiva lá fora (salvo poucos mas bons ramos desse sector), a corrupção e o clientelismo são “lapa na rocha”… – Portugal transformou-se numa sociedade de serviços, no “reino” dos call centers. Se formos por aqui, a Democracia não deixa muitas saudades… Não quero com isto fazer a apologia do Salazarismo, que deixou um País apático, “chorão” e ignorante, mas fria e coincidentemente foi nele que conhecemos os tempos áureos do crescimento e a consistência das finanças públicas que hoje tanto almejamos.
Indo à raiz valorativa da nossa comunidade, a par do que se verifica noutros lugares, ela também se alterou profundamente. A “sociedade do consumo” em que nos inserimos, tornou-nos “homens-máquina” egoístas, materialistas, desesperançados, mentirosos… – no fundo, pouco “religiosos”.
Seguindo esta tendência, na política passa-se o mesmo.
Primeiro, trouxe sede de poder e de dinheiro de grupos económicos e de facções sociais e partidárias: Os políticos rodam entre si de quatro em quatro anos, esvaziando e enchendo o aparelho do Estado de boys e girls que por serem do grupo A ou B, e não por terem a formação A ou B ou o mérito A ou B, têm a benesse mensal de 5000€ ou 10000€… ou 30000€… ou… numa empresa pública, numa direcção-geral… Os eleitos parlamentares e autárquicos não representam os eleitores, por conseguinte, os eleitores não se sentem representados pelos eleitos – a estes últimos compete-lhes agradar ao chefe partidário que os (re-)nomeiam para listas candidatas à AR, autarquias ou outros cargos públicos, pelo que quanto menos “derem nas vistas” e mais “calados” estiverem melhor. As grandes holdings cercam os grandes partidos, financiando-os encapotadamente, entranhando-se nestes com representantes nas suas direcções e, por consequência, nas funções políticas. As redes de interesse e as organizações “discretas”, como a Maçonaria, dominam o Estado, dele dependem e de si fazem depender as decisões políticas tomadas: ou, por um lado, os governantes pertencem a esses grupos; ou, por outro, se não pertencem sentem-se intimados a consultar as “opiniões” de quem pertence, pela força que estes últimos têm na sociedade e pelos benefícios futuros que aqueles podem tirar se agradarem a estes “companheiros”.
Segundo, tal como a sociedade, a política tornou-se “de consumo”. O vírus da mentira alastrou-se, sendo hoje poucos os políticos que põem a verdade acima dos interesses eleitoralistas partidários. A esse respeito, os últimos seis anos de governo foram paradigmáticos: um (ex-)primeiro-ministro que mentia desavergonhadamente, sem ética nem moral, criminoso, até, na maneira de gerir a propriedade colectiva de aumentar a propriedade privada, sua e dos seus íntimos (em dinheiro, influências, “papeis”, etc.). Mas não só o anterior se infectou com essa peste: também o actual primeiro-ministro, embora num grau notoriamente mais reduzido, desdisse-se e, para variar de paradigma (!), aumentou os impostos logo que pôde – a contradição não está em aumentá-los (algo que nos políticos é relativamente previsível, pelo que a sua promessa de não aumento não constitui juramento credível), nem sequer na falta de coerência em Passos Coelho (PPC – que, em poucos meses, dias, horas consegue dizer o exacto oposto do que julgava “pensar” anteriormente sobre um assunto – deve-se, ainda assim, ressalvar o facto do ziguezague de PPC se revestir dum carácter não tão premeditado como acontecia com Mr. José…); a causa é antes a humilde e visceral falta de preparação, e inteligência, até, para exercer cargos públicos, não obstante das boas intenções que nele se notam. A análise desta prática pode ainda expandir-se aos brilhantes antecessores José Manuel, António, Aníbal e Mário, mas, francamente, isso tornar-se-ia aborrecido, monótono e desinteressante...
Com todo este iluminado quadro de competência, seriedade e honestidade, altruísmo e serviço cívico, não espanta que o Parlamento (suposta “casa da Democracia", representativa do Povo, dos seus interesses, anseios e preocupações) seja cada vez mais visto com descrédito e desprimor. Para mais, assiste-se à quebra geral, “geral” em todas as bancadas, da qualidade dos deputados: ou pelo abandono voluntário de “históricos” que representavam o melhor (ou o mais razoável…) do serviço ao Estado; ou pelo abandono forçado de outros que não agradam às direcções partidárias, e que não se agradam com os lideres que têm.
Neste sentido, é de notar no PSD, para exemplificar, um êxodo de gente comprovadamente capaz e não tão “pegada” aos interesses “mundanos”: enumerando, são exemplos a Dr. Ferreira Leite e o Dr. Pacheco Pereira que, apesar dos seus feitios e momentâneos falta de senso, acrescentavam saber, verdade e rigor. Histórias semelhantes poderão ser encontradas na bancada do PS, onde também se verificou um “refrescamento” dos seus constituintes, ocorrendo-me os nomes de Jaime Gama e Vera Jardim (embora estes apenas por gozarem da respeitável condição de “idosos”). Noutro patamar, mas não menos relevante, são de lamentar as ausências de Maria José Nogueira Pinto e José Manuel Pureza. A primeira de inigualável inteligência, serviço aos outros e crença em Portugal ainda há pouco nos deixou, tendo partido para outro lugar (onde certamente estará em paz…), fixando um vazio que já hoje se nota. O segundo não conseguiu ser reeleito pelas listas do BE, partido com a qual tenho poucas ou nenhumas semelhanças, mas a ele reconhecia competência, contributo e não tão fácil antipatia (como verificamos em alguns dos seus colegas da “Mesa”) que, por ora, ficam descurados com os passados resultados eleitorais.
Acentuando esta crítica, podemos avaliar as figuras que hoje nos são “referência”. Nesse contexto, chegamos ao Palácio de Belém, onde mora o político português mais "dinossauro", medonho e mesquinho: Mr. Cavaco de seu nome que já anda nestas “aldeias” faz mais de 30 anos (embora se tenha sempre considerado um “mero professor universitário”), um verdadeiro político "de corredor", provinciano, que, diga-se em abono da verdade, representa bem o “ser português”.
Com isto nos vamos governando, ora mais à esquerda ora mais à direita, ao sabor das marés e tempestades que nos colhem. Revezam-se os políticos e revezamo-nos nós pelo avançar das gerações…