escarafunchando no baú...

sábado, 29 de outubro de 2011

Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz.

Não obstante das convicções religiosas de cada qual, sejam elas mais firmadas na fé ou na ausência desta, na prática religiosa corrente ou na descrença perante os dogmas apresentados pelas várias Ordens, decido partilhar o discurso proferido pelo Chefe da Igreja Católica, Papa Ratzinger, no encontro inter-religioso realizado em Assis (Itália), dia 27 de Outubro, com a epígrafe «Dia de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo». Faço-o em muito devido aos tempos que atravessamos, aos problemas originais do ser humano, aos valores, à sociedade onde estes habitam. É sem dúvida um texto inspirador. À parte de qualquer ateísmo mais extremado.
 



Queridos irmãos e irmãs,
distintos Chefes e representantes das Igrejas
e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,
queridos amigos,

Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa João Paulo II convidou representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão da terra em dois blocos contrapostos entre si. O símbolo saliente daquela divisão era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos factores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de carácter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma violência que não tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que, embora neste contexto não se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.
Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize por liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. E não é somente o facto de haver, em vários lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.
Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do adversário, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência.

A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

Se hoje uma tipologia fundamental da violência tem motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspecto multiforme, que possui uma motivação exactamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religião vêem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.
Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo.
A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência.

Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito.
Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma desgraça

Artigo de Vasco Pulido Valente na edição do jornal Público da passada sexta-feira (dia 21 de Outubro):

Alvarinho

Álvaro Santos Pereira (ASP) é ministro do Desenvolvimento Regional, do Trabalho/Emprego, das Obras Públicas, dos Transportes, das Comunicações, da Energia, do Turismo, do Empreendedorismo, da Competitividade e da Inovação.
Chiça, que o Álvaro não dá nada a ninguém. Quis tudo para ele e Passos Coelho deu-lhe tudo o que queria.
Não sei se, para ser ministro de tanta coisa (dez!), é preciso ser-se génio, ingénuo ou louco. Se calhar, as três em simultâneo. Mas, por muito génio, ingénua e louca que seja uma pessoa que aceite tamanha tarefa, ninguém aguenta!
Também não sei se ASP é uma criança mimada ou um super-homem. E aqui já duvido que seja ambos ao mesmo tempo. De qualquer forma, ser-se qualquer um dos dois, dá sempre jeito!

Fuga de Capitais

Quem são os mais ricos de Portugal?
Os ricos estão mais ricos. As 25 maiores fortunas em Portugal somam 17,4 mil milhões de euros, o que corresponde a uma subida de 17,8% face a 2010 e a 10,1% do PIB português, segundo o estudo anual da Exame.

TOP 10:
1. Américo Amorim: 2587,2 milhões de euros
2. Alexandre Soares dos Santos: 1917,4 milhões de euros
3. Belmiro de Azevedo: 1297,6 milhões de euros
4. Família Guimarães de Mello, 1006,6 milhões de euros
5. Família Alves Ribeiro: 779,7 milhões de euros
6. Perpétua Bordalo da Silva e Luís Silva: 679,7 milhões de euros
7. Rita Celeste Violas e Sá, Manuel Violas: 650,6 milhões de euros
8. Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo: 645,8 milhões de euros
9. Família Cunha José de Mello: 638 milhões de euros
10. António da Silva Rodrigues: 551 milhões de euros
É tudo meu!

Não me digam que não há dinheiro! Não me digam que uma taxa de 2,5% (loucura!) sobre as grandes fortunas seria o desastre, a catástrofe, a tragédia, o apocalipse para a nossa Economia. Não me digam que, se uma contribuição (única) fosse pedida a quem mais tem, os 10753,6 M€ dos 10+ iriam “à viola”, sairiam do País, migrariam para a Suíça! (E depois? A Sonae desaparecia? Deixaríamos de ir ao Pingo Doce comprar iogurtes? O Hospital da Luz não mais receberia o Eusébio quando lhe desse a “fininha”? A CUF não mais faria TAC’s a jogadores do Sporting? O Espírito Santo deixaria de estar em toda a parte? O Amorim daria “à sola” com os seus 2587,2 M€ – onde é que ele punha tanta nota?) Não me digam que os sacrifícios são para todos! Não me digam que esta Sociedade é justa!
 Contas por alto, uma taxa de 2,5% só sobre as 10 maiores fortunas de Portugal permitiria uma receita de 268,84 M€. Coisa pouca para um Estado aflito!
Vamo-nos dar ao luxo de deixar fugir este dinheiro? Isto sim é fuga de capitais!

sábado, 22 de outubro de 2011

Estado de Direito

Deputado arguido eleito para o CEJ
Ricardo Rodrigues vai ser julgado por atentado à liberdade de imprensa. Juízes e procuradores contestam escolha de um arguido para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários.


Ricardo Rodrigues (aquele que palma gravadores a jornalistas em flagrante delito (!), quando estes lhe fazem perguntas não totalmente do seu agrado) foi nomeado para o Conselho Geral do CEJ, com o acordo dos partidos com assento parlamentar.
Nada melhor do que um gatuno (para além de outras coisas – um tipo que ainda tem, e não "teve", problemas com a Justiça) para um órgão do Centro onde se formam juízes e magistrados.

Brilhante conluio partidário e o progresso do Estado de Direito ao virar da esquina...

Barbárie

Vídeo que mostra a morte de Kadhafi difundido no Youtube:
Assassino assassina assassino!
Dignidade da pessoa humana é zero!
Estão todos bem uns para os outros!

Classe média democrática

Artigo de Vasco Pulido Valente na edição do jornal Público do passado sábado (dia 15 de Outubro):

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ca-vaca

Cavaco e as amigas orden(h)adas:
E agora, silêncio:
«Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam, uma atrás das outras (!), e se encostavam no robot e se sentiam deliciadas, enquanto ele, durante cerca de 6/7 minutos, realizava a ordenha. Ela saía e imediatamente outra entrava!»

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Festins

Todos os anos, o dia 5 de Outubro é feriado em Portugal, e este, claro, não foi excepção. É-o graças à República, ao seu aniversário e à homenagem dos seus implantadores. Acima de tudo, o Povo agradece, ainda para mais se calhar a um dia de semana, o que também se verificou este ano!

Numa cerimónia que se repete anualmente sem restrição, para gozo dos populares que a ela assistem e alegria dos media que sobre ela têm a debater e a “rescaldar”, na Praça do Município de Lisboa, falam umas pessoas, outras (de pouco menor “importância”) assistem sentadas e outras mais (de reduzido “status” – a Plebe) mantêm-se de pé nas periferias, olhando as pessoas (as primeiras, dignas desse nome) a falar (olhando só, já que, para ouvir, ouve-se em casa), reparando no hastear da bandeira e ouvindo a banda da armada tocar A Portuguesa. Um festim de pouco interesse político, baseado no simbolismo e amarrado pela perda de tempo e dinheiro que significa. Se o “5 de Outubro” sempre foi assim, agora ainda o é mais.
Uma das pessoas que fala – e, quando ele fala, os outros baixam as orelhas (e abrem a boca de espanto!) – é o Presidente da República Portuguesa: está no Palácio de Belém o Sr. Prof. Dr. Aníbal Cavaco Silva! É um relaxante exercício de yoga ouvir os discursos de Cavaco. Feliz ou infelizmente para os Portugueses, essas aulas (de relaxamento) só se realizam uma vez por Estação do Ano: 1 de Janeiro, 25 de Abril, 10 de Junho e 5 de Outubro; podendo, caso apareça algum Estatuto Autonómico loucamente mexido ou qualquer escuta marciana de indefinida autoria, haver uma ou outra sessão extraordinária.
Em Cavaco já pouco nos surpreende. Bem sabemos que o Sr. faz um esforço para ser mais comunicativo, para que a sua oratória seja mais apelativa, para que a sua imagem seja mais apreciada; mas em nada resulta. Aliás, seria até mais vantajoso que não fizesse esse esforço, por uma questão de poupança: por um lado, poupa-o à humilhação de cometer gaffes e de fazer “figuras” e, por outro (não menos relevante, de todo), poupa-nos (aos poucos resistentes que lhe ligam) à vergonha de assistir a “tesourinhos deprimentes” da política portuguesa. Mas não é só isso que já não nos surpreende em Cavaco: o teor (e não apenas a forma) das suas intervenções públicas está carregado de cassetes rebobinadas um sem-número de vezes neste passado recente.

Para que a conversa não se fique apenas pelo geral, vamos ao concreto – o dito discurso do 5-10. Eis as suas ideias fortes: 1) o PR alerta que «vivemos tempos muito difíceis» e decreta o fim dos «tempos das ilusões» – o que ele não sabe é que poucos são os Portugueses que ainda não sabem [ao fim de tanto tempo] que estão em crise ou que não perceberam que vão pagar permanentemente mais impostos, receber menos em salários, prestações e outras “regalias” sociais, que funcionários públicos vão para “o olho da rua”, que as contas do Estado têm de “entrar [definitivamente] nos eixos”, que as Autarquias têm de gastar menos, que as Empresas têm de depender menos do Estado, que as reformas no futuro vão ser mais baixas (senão acabarem), que terão de trabalhar mais, com menos férias, etc., etc.; 2) Cavaco avisa também que a crise «irá exigir grandes sacrifícios» e que estes vão requerer muito de nós – não é preciso ser-se economista para perceber esta “la palicianice”; 3) apesar de tudo, o Presidente não duvida «de que somos capazes» – ainda bem que o acha, caso contrário não estávamos cá a fazer nada – é sempre bom ter quem confie em nós! Brilhante tudo isto, não?
Mas, para que não o acusem de não apontar soluções e de não mandar recados, o Sr. Prof. Dr. Aníbal deixa algumas pistas para contornarmos o furacão em que nos enfiámos: 1) é imprescindível haver «justiça na repartição dos sacrifícios» – resta saber como, mas até António Amorim (corticeiro) concorda; 2) é fulcral apostarmos no crescimento económico – algo que ninguém nega, já que, sem ele, não conseguiremos aumentar a receita fiscal e reduzir a despesa pública (em prestações sociais, por exemplo) que nos permitam pagar o mega empréstimo internacional que estamos a receber; 3) temos de desenvolver as actividades do 1º sector da Economia (Agricultura, Pescas, Extracção de Recursos Naturais) – cá vem uma pista para atingir o dito crescimento, dica essa consensual, na medida em que todos sabemos que o nosso sector primário não é competitivo e não aproveita todas as vantagens competitivas que tem – mas, lá está, como alcançar isso? 4) por último, Cavaco Silva avisa que os governantes devem ter «especial preocupação de inclusividade e de protecção daqueles que verdadeiramente precisam do nosso auxílio» – um conselho verdadeiramente precioso, que não está ao alcance do comum dos mortais! É com esta panóplia de conselhos que o PR brindou todos os que assistiram às comemorações do “5 de Outubro” e a outras semelhantes já passadas. Para isso, mais vale não assistir a elas, não ligar a TV, não ir à Praça do Município – não traz nada de novo: o hino é o mesmo, os discursos os mesmos são, a bandeira não muda, a Praça mantém-se no mesmo lugar, ano após ano, e o 5 de Outubro não passa para Novembro.
Mas, de facto, o Presidente da República tem razão. Tem razão ao dizer que «perdemos muitos anos na letargia do consumo fácil e na ilusão do despesismo público e privado». Tem razão ao afirmar que «não poderemos continuar a viver acima das nossas possibilidades». Tem razão ao descrever que «temos um longo e árduo caminho a percorrer». Tem razão, de sobremaneira, ao sinalizar que temos de «tirar partido das nossas potencialidades», apostar na floresta e nos produtos regionais, explorar melhor os oceanos, revitalizar o tecido produtivo nacional, reanimar o investimento privado, poupar mais e eliminar gastos desnecessários, combater o desemprego e aumentar a produtividade e a produção, em suma. Em tudo isso ninguém lhe tira a verdade, o problema é que Cavaco, ao mesmo tempo que diz isto, com toda a razão volto a dizer, esquece-se das suas responsabilidades, daquelas que mais ninguém pode assumir, nos mais de trinta anos que leva de vida política activa (ou “activa”, na fase mais recente). Nesse sentido, o Presidente não se lembra que já o é (Presidente) há seis anos. Não se lembra que assistiu, de sofá, sem grande comichão, importância ou intervenção, aos disparates do governo de Sócrates, à ruína da sua política, à loucura pelo investimento público, à obsessão pela “obra”, à propaganda, à asfixia, às PPP’s por contabilizar, à distribuição dos Magalhães, à parvoíce das “Novas Oportunidades”, à perseguição a jornalistas, ao clima de medo, às aldrabices contabilísticas e outras, às perguntas por responder, aos casos mal explicados, etc., etc.. Não se lembra que foi primeiro-ministro deste Portugal durante dez anos, nos “remotos” 80’s e 90’s, num período crucial para a nossa integração europeia, aplicação dos fundos estruturais e estabilização económico-monetária. Não se lembra que foi ele mesmo o “plantador do Estado a dever”, que lançou as bases do “Estado gordo”, que instalou «hábitos de despesa supérflua», que alterou o regime de admissões e carreiras na função pública, possibilitando o crescimento exponencial do aparelho público, que encetou a época do betão, do alcatrão e do “corta fita”, que inaugurou as contas por pagar, os “défices virtuosos”, as dívidas, as despesas e os vícios da classe empresarial “à mama” do Estado. De nada disto se lembra Cavaco Silva. Assim, como é que alguém há-de ligar aos seus discursos?
Embora seja curioso perceber que, apesar de todos lhe conhecermos os jeitos e os malabarismos, não há quem o confronte, o contrarie, lhe coloque questões incómodas, lhe peça explicações e lhe atribua responsabilidades. No fundo, ele é o Presidente. E no Presidente, ninguém toca!

Realmente, é enervante ouvi-lo: a voz, a “figura”, os tiques, a soberba e, claro, o conteúdo. São raras as oportunidades de o ouvir, mas quando isso acontece, cai mal no estômago, faz zumbido nos ouvidos e cria anti-corpos em nós. E irrita ainda mais que o Presidente prefira invariavelmente o silêncio à intervenção, por muito grave que seja, tem sido e é a situação, refugiando-se na de que «o Presidente da República não se deve envolver no combate político-partidário». Mas então, para que serve o Presidente da República, senão para pôr ordem no debate político, contrariar manias e apontar para onde devemos ir, tendo em conta o seu «profundo conhecimento do País»?
É pouco clara a noção dos Portugueses sobre poderes presidenciais. E com razão. Porque, vendo bem, nós sabemos o que ele não pode fazer, isso é certo: não pode demitir um primeiro-ministro, por muito mau que seja, por muito que minta, por muito que não saiba governar, por muito que arruíne o País; não pode comentar barbaridades ditas por outros actores públicos, por muito pouco que contribuam para enriquecer o debate, por muito mal que façam à coesão nacional, por muito que humilhem a Pátria; não pode criticar comportamentos de outros políticos, por muito descabidos que sejam; não se pode associar a movimentos cívicos, por muito genuínos, meritórios e benéficos que se afigurem para Portugal. Agora, perceber qual é o raio de acção do PR, é que é mais difuso: sabemos que recebe uns embaixadores de vez em quando, que é convidado para umas conferências, que faz visitas de Estado a outros Chefes de Estado, que condecora uns quantos tipos, que concede indultos a outros desgraçados criminosos, que lança uns roteiros para promover a Ciência e a Ruralidade, que viaja pelo País e que faz uns discursozecos em cerimónias oficiais. Se é assim, se a instituição Presidente da República pouco mais serve senão para ocasiões protocolares e pequenos actos de caridade, para quê dar tanta relevância à sua eleição de 5 em 5 anos? Para quê dizer que a sua escolha influência o rumo que o País pode seguir? Para quê afirmar a diferença de ter um professor de Finanças em Belém em situações como as que vivemos hoje? Ser Presidente, afinal, não é como ser diplomata?
É igualmente fascinante, reforçando a minha crítica, reparar no comportamento marginal do «Sr. Silva» nos mais diversos domínios. Primeiro, o mais importante, no caminho que usa para se desculpar das suas acções e responsabilidades históricas (algo já introduzido) e como disserta sobre as «décadas perdidas» sem se dar conta de ter sido quem iniciou a perda das décadas. Segundo, na maneira como fala da classe política – do «exemplo autêntico» que esta deve dar, num momento em que o Povo se pena para pagar esta enormidade de impostos – como se não lhe pertencesse, sabendo nós há quanto tempo anda o homem a rondar esses meios. Terceiro, no modo como se gaba da obra/herança/legado que deixou ao País, durante tanto tempo em que nos dirigiu (também já referido), passado profissional e pessoal «imaculados» e como ralha aos políticos de hoje, com os famosos «avisos recorrentes» (tudo via Facebook – aspectos relacionados com os dois primeiros). Quarto, no “jeito” com que comete gaffes e omissões, como traz o «Dia da Raça» e se engasga a comer bolo-rei, como fala de hipotéticas escutas à sua Casa Civil e invasões ao seu “émeil” e não se pronuncia sobre mais-valias de 140% nos mercados de capitais alcançadas por «meros professores universitários», como se acha livre do escrutínio sobre a transparência de transacções imobiliárias no Algarve e dispensa Conselheiros de Estado de serem idóneos. Quinto, na forma como se perde em assuntos inócuos (para lá dos referidos, porque… há mais!), enternecendo-se com o «sorriso das vacas», debatendo com a mulher, e “Primeira-Dama”, o real peso dum queijo gigante (tudo nos Açores) e espantando-se que o Papa Ratzinger, por alturas da sua visita à Lusitânia, soubesse papaguear os nomes dos seus netos. Sexto, na habilidade como sobrevaloriza a sua ciência em Finanças, como trocou o “virtuoso” por escandaloso, em duas décadas, e previu a crise num artigo de jornal, em 2000 e troca o passo, num tom tão alto, tão alto, que até D. Maria não percebeu à primeira! 


Para um Presidente da República que se julga tão altivo e corajoso, tão economista e assistencialista, tão social-democrata e reformista, parece-me bem que comece a fazer alguma coisa, dê lá por onde der, para tirar Portugal do fosso… Ou não, já que se formos a ver o seu passado longo no nosso governo, redigo, a coisa não se fez brilhante e, se atentarmos aos pequenos exemplos, eles também não anunciam grande mudança daqui para 2015 (o Palácio de Belém, da era Cavaco, é historicamente o que mais gasta: nem as megalomanias de Soares e as dignidades da Casa Real Espanhola ultrapassam o despesismo da Silva). Já que não se pode receber embaixadores à luz das velas, por favor, reconheça que Portugal não é a Suíça e poupem no que puder!
Portanto, se «a crise que atravessamos é uma oportunidade para que os Portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua, para que redescubram o valor republicano da austeridade digna», poupem no “carcanhol” e deixem-se de festins!

domingo, 16 de outubro de 2011

Fado, Futebol ou Fátima?

A propósito da re-calendarização dos feriados (com a qual concordo, mas por razões bastante diferentes das que motivam o Governo), dei-me ao trabalho (não muito) de elencar os dias de repouso por motivos religiosos, e tirei uma conclusão interessante.
Lá muito no meio de “Todos os Santos”, do “Corpo de Deus”, da "Assunção de Maria" (ou da Maria da Assunção) e da "Imaculada Conceição" – ou, resumindo, do Corpo Imaculado de Conceição que parece dum Deus e que agrada a Todos os Santos, inclusive à Maria da Assunção (!) –, juntando-lhes umas “Agonias” espalhadas por esses Concelhos, descobri… um Estado laico, uma Sociedade onde «ninguém é privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de (...) religião [que segue]» (in «Constituição de Abril» – art. 13º, n.º 2).
Precisei de inspiração divina, mas lá encontrei!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Caiu-me mal!

Hoje o jantar caiu-me mal.

A certa altura, por volta das 8h, quando cheguei a casa e liguei o rádio para ouvir as notícias, reconheci uma voz que me não era estranha. Esperei um instante e logo percebi, pelo vozeirão e dicção, de quem se tratava: o nosso primeiro-ministro. Presumi de imediato que se tratasse de uma comunicação à hora dos telejornais, muito provavelmente/certamente versando-se sobre o Orçamento do Estado a apresentar na AR segunda-feira (dia 12). Não me enganei. Como cheguei “tarde” para ouvir aquilo que mais interessava, e estando a escutar os termos “responsabilidade”, “dinamismo” e “cooperação”, fiquei a pensar: «bom, lá está Passos Coelho a pressionar, mais uma vez, Seguro a aprovar o Orçamento e a CGTP a estar quietinha nos próximos anitos e a lançar a escada para um OE com vários cortes». Em parte não me equivoquei, mas o sumo da declaração ainda estava por conhecer. Fui ouvindo e ouvindo até que o senhor se calou. Foi assim tempo para a TSF (onde estava sintonizado) resumir a declaração, apresentando os sons principais. Aí, fiquei boquiaberto!
Como as notícias correm depressa não seria preciso resumir a brutalidade do que hoje nos foi apresentado. Mas, como estamos muito em cima do acontecimento, passo a enunciar: O Governo decidiu, pela oitava conferência de imprensa seguida, comunicar a ida (mais uma) ao bolso dos portugueses. Na circunstância, aprovou a eliminação dos subsídios de Natal e Férias para os funcionários e reformados públicos que ganhem acima de 1.000 € (claramente, classe alta!), a vigorar nos próximos 2 anos. Aprovou também a extensão do horário de trabalho em ½ hora diária no sector privado e a reprogramação dos feriados.
Bom, isto não é um corte, mas um talho. O Governo-talhante anda de “candeias às avessas” para pôr o Estado em ordem, mas não consegue. De tal modo, que não se cansa… mas de aumentar impostos ou de reduzir salários/subsídios (o que vai dar ao mesmo).
Poder-se-ia pensar: «bom, mas, em simultâneo que pedem estes sacrifícios, eles estarão certamente a arranjar fontes alternativas de receita e planos distintos de redução de despesa». Pelo que nos é dado a perceber, e muito provavelmente será afirmado nos próximos dias, isso não se está a suceder. E nem serve de justificação a falta de conhecimento da máquina do Estado, já que o Executivo tomou posse há 4 meses, nem sequer que as medidas de corte da despesa (“supérflua”) precisem de mais tempo para serem estudadas, pois os tais 120 dias deviam chegar, nem ainda que os ajustes salariais sejam os mais rápida e facilmente aplicáveis e eficazes. Nada disto é desculpa. Posso estar muito enganado, mas quero é que me elucidem!
Passos seguiu uma estratégia de anúncio das políticas orçamentais ruins, primeiro, para evitar doses maciças de especulação, e notícia das mais agradáveis para segunda-feira. Resta agora saber o que entende o Governo como “agradáveis”: talvez um aumentozito do IVA da restauração, talvez das taxas moderadoras, talvez… Quanto a isso, só temos de esperar, e de desesperar entretanto!
A missão deste Governo é impossível: juntar o crescimento económico à austeridade. O termo “impossível” não me vem “do pé para a mão” de qualquer jeito, mas antes é baseado, tão-somente, nas previsões estatísticas das autoridades nacionais e internacionais. É mesmo impossível: com medidas de redução no rendimento disponível das famílias, como ouvimos hoje, e de asfixia financeira das empresas, que escutaremos em diante, Portugal não conseguirá crescer e, por conseguinte, pagar o empréstimo internacional que contraiu em Maio. Estou, neste rasgo de pessimismo, a juntar-me ao grupo daqueles que vêm Portugal como a new Greece. Espero estar enganado, espero bem!
Pensando que os credores internacionais (a troika) está mais, ou unicamente, interessada em que Portugal pague o que deve (dê lá por onde der) e como é o Estado que transfere o dinheiro “para” António Borges/Durão Barroso/Jean-Claude Trichet (este de saída, aqueles de “ficada”), o Governo de Passos-Portas assumiu como seu desígnio saldar o défice e controlar a dívida e abandonar estratégias de desenvolvimento económico-produtivo. Dessa forma, não se têm escutado medidas que incentivem o crescimento da produção nacional, que implicam folga orçamental, mas apenas caça ao imposto e razia nas despesas (sem aspas, para melhor acentuação). A questão que se coloca é a forma como se faz essa correcção e aí entra a minha irritação.
Passando para o sermão.
Não consigo perceber, numa altura em que: aumentaram o IVA do gás e electricidade como aumentaram, subiram os preços dos passes e títulos de transporte como subiram, tiraram metade (só?!) do subsídio de Natal (deste ano!) como tiraram, e outras políticas as quais não tenho em mente agora, como é possível este Governo, eleito também com o meu voto e acolhido com simpatia pela maioria dos lusitanos, descartar tão levianamente como o faz sacrifícios aos mais ricos.
As coisas têm de ser proporcionais. Se aqueles que menos têm são os mais onerados pela crise e os que mais têm estão dispensados de contribuir para o esforço financeiro em curso, alguma coisa vai mal. E não é preciso ser-se comunista ou de esquerda (simplesmente – o que não é, de todo, o meu caso) para se dizer uma banalidade destas. Só é necessário bom senso/equilíbrio. Mas parece que Passos está mais interessado em assegurar o equilíbrio das contas públicas do que garantir o equilíbrio das medidas que propõe.
Não estou a ignorar a necessidade de algumas das políticas decididas (com as quais, algumas, até concordo), mas antes a reclamar maior justiça social, ou pelo menos mais exemplo. Não é por isso compreensível que se rejeite tão liminarmente um imposto sobre grandes fortunas ou sobre lucros de grande dimensão (o que, aliás, “custaria” proporcionalmente bastante menos do que tirar 1/7 do vencimento de um funcionário do Estado) que, por muito residual que possa ser a receita pública por ele gerada (algo que carece de melhor avaliação), criaria maior unidade/credibilidade por parte dos cidadãos (em geral). E, quem diz um imposto sobre fortunas, fala também da isenção fiscal da zona franca da Madeira (offshore) ou da menor carga fiscal da banca e dos fluxos dos mercados de capitais.
Não me venham com a história da “fuga de capitais”, porque com essa pode muito bem a nossa evasão fiscal. Se é certo que essa possibilidade existe (a da fuga de capitais para os paraísos fiscais), é ainda mais do que certo que, quando se aumentam impostos, há sempre uns “artistas” que engendram maneira de não pagar esse esforço adicional e, portanto, evadir-se. A coisa é de tal modo apresentada que se acha que, no mesmíssimo dia em que Vítor Gaspar (VG) pudesse anunciar uma contribuição especial a cargo dos mais afortunados (o que só acontece na ficção), os ricos, todos eles, pegariam nas suas jóias e depositariam no UBS. Se com alguns essa tentação era inevitável, com a maioria deles isso não aconteceria. É dos livros, e um professor respeitado como é VG devia saber isto (senão o sabe já). Desse modo, é uma “desculpa de mau pagador” (se lhe posso chamar assim) para o argumentário que usam.

Atrás, disse que o Executivo não estava interessado em fazer o País produzir mais. Talvez tenha cometido uma “injustiça social”. Antes de o ter escrito, devia-me ter lembrado da outra política hoje dada a conhecer por Passos Coelho: o prolongamento do horário laboral. É esta a forma que os parceiros sociais/governo encontraram para compensar o não abaixamento na TSU, a qual relançará a Economia? Se é, é uma asneira. É-o, não porque os portugueses não precisem de trabalhar mais, de se esforçarem mais convictamente, de incrementar a sua produtividade, não porque esse prolongamento possa roubar trabalho a outro pessoal que pudesse ser contratado para colmatar essa carência (como ouvi hoje da boca de João Proença-UGT) nem que fosse pela ½ hora diária sobrante, mas antes porque a nossa Economia não se baseia nas indústrias, nas cadeias produtivas em larga escala como acontece na China, onde ½ hora dá para produzir muita peça, mas antes nos serviços. A decisão é tão acertada que nem aqueles que mais podiam beneficiar e concordar com ela estão do lado de Passos Coelho: a Confederação do Comércio e Serviços e a Empresarial de Portugal. Quando um plano de competitividade não agrada nem a patrões nem a “trabalhadores” (embora estes nunca se agradem facilmente com nada), é porque não serve mesmo. Disparate pegado!

A última nota que queria deixar, para não sobrecarregar mais o Dr. Pedro, que não tarda aparece de cabelos brancos, cifra-se no passado (não muito distante). Dei por mim a pensar em Sócrates (volta e meia tenho destes pensamentos). «Sacana», exclamei eu. Enquanto está ele em Paris a fazer sei lá o quê, com o rabo virado para a lua e a saborear fondus todos os dias, estamos nós (aqui) a pagar a “herança”/”obra” que ele nos deixou. É preciso ser-se, de facto, muito habilidoso para neste momento não estar atrás das grades. Foi um crime o que nos fez (dispenso, neste momento, apreciar os crimes que ele cometeu na esfera privada ou na “privada”), mas há quem, apesar de tudo, o veja como o “melhor primeiro-ministro que Portugal já teve” e idolatre o seu “sentido de Estado” e “interesse nacional” nos tempos em que cá estava. «Vão-se encher de moscas», é o que vos desejo (para não vos recomendar outra coisa). Gostava que alguém se pusesse no terreno e se mexesse para o julgar, como fizeram os islandeses com o seu ex-primeiro (ai se os islandeses viessem cá!). Mas, franca e infelizmente, isso é impossível e vamos continuar a ser um Povo de “brandos costumes”. Não se queixem!

E pronto! No final de contas, acabo esta noite sem perceber se a minha indisposição veio do jantar ou do rádio. O melhor é fazer uma auditoria/inspecção-geral ao estômago e ouvidos, para ver se lá encontro buracos. Quando for tratar disso, direi ao médico: «pois é Sotôr, caiu-me mal»! E assim foi…

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Desempregado, coitado!

ANL: não se trata da Associação Naval de Lisboa, já que o senhor deve andar a navegar em dinheiro!
(adaptação de um e-mail recebido em Outubro de 2011)

António Nogueira Leite (ANL) vai ser vice-presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos e ganhar mais de 20 mil euros/mês. Com ele, a nova Administração do banco público passará a ter 11 administradores, entre executivos e não-executivos. Se isto é fascinante, ainda não viram tudo. Então, reparem bem nos cargos que já tem o senhor…
 Actualmente já é:
·         Administrador executivo da CUF,
·         Administrador executivo da SEC,
·         Administrador executivo da José de Mello Saúde,
·         Administrador executivo da EFACEC Capital,
·         Administrador executivo da Comitur Imobiliária,
·         Administrador (não executivo) da Reditus,
·         Administrador (não executivo) da  Brisa,
·         Administrador (não executivo) da Quimigal
·         Presidente do Conselho Geral da OPEX,
·         Membro do Conselho Nacional da CMVM,
·         Vice-presidente do Conselho Consultivo do Banif Investment Bank,
·         Membro do Conselho Consultivo da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações,
·         Vogal da Direcção do IPRI.
·         Membro do Conselho Nacional do PSD desde 2010.
 Espanta, não?
De facto, o homem é super: um super-homem. Alguém me explica como é que consegue estar em 14 locais de trabalho ao mesmo tempo? Será que, no calendário dele, a semana tem mais do que 7 dias? E não podia dispensar um ou dois tachos para uns genuínos desempregados poderem cozinhar?
Há que haver lugar para todos e, aos Barões, não serve um qualquer…

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Madeira: notas sobre o arraial das suas eleições




Depois de contados os votos nas eleições regionais madeirenses, depois de ouvido o discurso vitorioso muito realista e ponderado de Alberto João, depois de percebido que quem “manda” na Madeira é mesmo quem lá vive, depois de noticiado a quase perda da maioria absoluta de PSD-Madeira, depois de repararmos na quantidade de partidos que alcançaram assento na Assembleia Regional (oito!), depois de imaginarmos quão divertidas vão ser as sessões legislativas naquele arquipélago (mais do que o costume!), depois de anotado que, apesar da dispersão de mandatos atribuídos a partidos nacionalmente irrelevantes, o Bloco de Esquerda fora o único a conseguir não eleger ninguém, depois de debatido as consequências que estes resultados poderão ter na coesão da maioria PSD-CDS que governa o País, depois da passagem do CDS a segunda força política regional e da estrondosa derrota da esquerda, em geral, e do PS, em particular, acabou-se. Acabou-se a festa, a propaganda, os bailaricos, os comícios, os excessos… ou não!
Os resultados da consulta popular mostraram muitas e interessantes coisas. A primeira, e a que ainda dura, a confiança do Povo em Alberto João Jardim, principalmente o reconhecimento pela obra feita ao longo de 30 anos. A segunda, que essa confiança é cada vez menor, numa clara repreensão às manias do seu líder, às mentiras operadas e aos vícios do regime. Terceira, que a margem de negociação para o plano de ajustamento financeiro do Executivo madeirense para com o Governo da República é muito diminuída: dantes, aquilo que suportava a chantagem de Alberto João, quando se tocava nos assuntos das finanças regionais, tinha a ver com a adesão do Povo madeirense às causas de Jardim, a questão da “independência” e de outras conexas; hoje, com uma maioria absoluta paupérrima e uma autoridade cada vez mais raquítica (se ainda sobra), o seu poder negocial é quase nulo. Quarta, o PSD-M é cada vez mais um mundo à parte do PSD nacional: nesse sentido, foi clarificador o discurso de José Matos Rosa na sede nacional do PSD, ontem em Lisboa, congratulando-se, como não podia deixar de ser, por mais uma vitória eleitoral, mas distinguindo o mérito da mesma e as acções recentes dos responsáveis regionais – resumindo, disse Rosa, “o PSD nacional encara o resultado destas eleições com muita humildade”. Quinta, os madeirenses querem mesmo continuar a ser portugueses: apenas atribuíram a vitória a Alberto João por oportunidade – não há mais ninguém, por muitos que sejam os disparates de Jardim, por muito que a oposição rosne, por mais preparado que esteja o CDS-Madeira, que melhor consiga gerir os assuntos da região do que o “tiranete” – é algo que espanta, mas é verdade. Sexta, o PSD tem de se cuidar, e muito, com o CSD: hoje, o partido de Portas vinga onde era impensável que vingasse, é verdadeira alternativa e jamais retornará, senão com um grande tombo, ao “partido do táxi”. Sétima, o PS está absolutamente sem norte: sem liderança afirmativa, ideias ou alternativas, envergonhado pelo seu passado recente (com razões para isso) e mal encarado pelos cidadãos – vai de pior a péssimo! Oitava e por último (mas não menos importante, absolutamente!), na Madeira tudo é diferente: o acto eleitoral de ontem foi um escândalo (sem exagero algum) – desde licores oferecidos à porta de assembleias de voto a carrinhas de empresas públicas transportando eleitores para exercer o seu direito cívico, de espectáculos de propaganda eleitoral em dia de consulta a festejos excessivos na sede do vencedor ( a) após o discurso de Jardim, uns quantos energúmenos, do 7º piso da sede, começaram a atirar baldes de água cá para baixo, onde se encontravam jornalistas em reportagem, do género “cá vai disto”, e, b) nos momentos seguintes, não contente com a festa que ali estava montada, um sujeito de igual “relevância” deu de si a largar, na direcção dos demais, espuma de extintor, de tal maneira que até o “querido líder” se teve de resguardar no edifício) – percebo por isso que o Dr. Jardim diga que a Comissão Nacional de Eleições não serve para nada (por ele era eliminada): tudo isto está ao nível das eleições no Sudão (completamente submundano).
Acabada esta anestesia, normal nas campanhas e, ainda para mais, quando elas se realizam na Madeira, é a altura do aperto. Um aperto austeritário que os madeirenses raramente sentiram. Um aperto político que Jardim nunca experimentara. Um aperto económico que a região não se lembra de sofrer. Entre IVA’s e outros impostos a subir, despesa pública a mirrar, cortes salariais e nos funcionários públicos, offshores a rever (presumivelmente, embora não para já) e desemprego a aumentar (como no continente), folgas orçamentais nulas e dívidas por saldar, digam-me lá se não há para aqui coisas que entretenham Alberto João e “os seus feudos” (como diz Pulido Valente) nos próximos tempos? Jardim não pode falhar. E o pior, para mal da região e do País, é que vai mesmo falhar. That’s my bet!
O Povo, em geral e nestas coisas (apesar de nem sempre), é sabichão: sabe dar o poder a quem melhor o executa, dá-o na proporção adequada e penaliza quem tem de penalizar. Ao Dr. Jardim, tudo isto aconteceu. E, por incrível, o grande vitorioso da noite de ontem foi mesmo quem não se deu por ele: Pedro Passos Coelho – pôde somar, sem qualquer esforço pessoal, mais um triunfo ao palmarés do PSD; sabe agora que, daqui para a frente, Alberto João Jardim está “preso por um fio”, por uma maioria inconsistente e por um partido que já não o “grama”; tem consciência de que, nunca como antes, Jardim esteve tão frágil, física e politicamente, e dependente das ordens e vontades de “Lisboa”.
Jardim está entrincheirado nos buracos que cavou e, para seu desgosto e alívio dos bolsos de todos, a Madeira não será mais o arraial que tem sido… ou não!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Ares da Insularidade



Alberto João está transformado num socialista, liberal e conservador, num democrata e ditador, num patriota e independentista, num keynesiano e hobbesiano, num anti-maçom e anti-“meninos de coro”…
Ó homem, decida-se!
Jardim faz-me lembrar Anders Breivik. Até se meteu numa ilha!

domingo, 2 de outubro de 2011

Compaixão

A Troika das Bermudas

Nós, os continentais, dizemos, com razão, que eles, os madeirenses, são borlistas, despesistas, pouco solidários e que pagam menos impostos, que aldrabaram as contas, que eles, os madeirenses, é que têm de tapar (pagando) os ‘buracos’ que andaram a cavar (desperdiçando), durante anos a fio, e que já estava na altura deles, os madeirenses, sentirem a austeridade.
Embora não retire a razão que nós (os continentais) temos para os (madeirenses) criticar, não foi, é e será isso que os alemães disseram, dizem e dirão de nós (os continentais)?!
Agora sim, sentimos o que é pagar os disparates alheios. Ai se o sentimos!