escarafunchando no baú...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Madeira: notas sobre o arraial das suas eleições




Depois de contados os votos nas eleições regionais madeirenses, depois de ouvido o discurso vitorioso muito realista e ponderado de Alberto João, depois de percebido que quem “manda” na Madeira é mesmo quem lá vive, depois de noticiado a quase perda da maioria absoluta de PSD-Madeira, depois de repararmos na quantidade de partidos que alcançaram assento na Assembleia Regional (oito!), depois de imaginarmos quão divertidas vão ser as sessões legislativas naquele arquipélago (mais do que o costume!), depois de anotado que, apesar da dispersão de mandatos atribuídos a partidos nacionalmente irrelevantes, o Bloco de Esquerda fora o único a conseguir não eleger ninguém, depois de debatido as consequências que estes resultados poderão ter na coesão da maioria PSD-CDS que governa o País, depois da passagem do CDS a segunda força política regional e da estrondosa derrota da esquerda, em geral, e do PS, em particular, acabou-se. Acabou-se a festa, a propaganda, os bailaricos, os comícios, os excessos… ou não!
Os resultados da consulta popular mostraram muitas e interessantes coisas. A primeira, e a que ainda dura, a confiança do Povo em Alberto João Jardim, principalmente o reconhecimento pela obra feita ao longo de 30 anos. A segunda, que essa confiança é cada vez menor, numa clara repreensão às manias do seu líder, às mentiras operadas e aos vícios do regime. Terceira, que a margem de negociação para o plano de ajustamento financeiro do Executivo madeirense para com o Governo da República é muito diminuída: dantes, aquilo que suportava a chantagem de Alberto João, quando se tocava nos assuntos das finanças regionais, tinha a ver com a adesão do Povo madeirense às causas de Jardim, a questão da “independência” e de outras conexas; hoje, com uma maioria absoluta paupérrima e uma autoridade cada vez mais raquítica (se ainda sobra), o seu poder negocial é quase nulo. Quarta, o PSD-M é cada vez mais um mundo à parte do PSD nacional: nesse sentido, foi clarificador o discurso de José Matos Rosa na sede nacional do PSD, ontem em Lisboa, congratulando-se, como não podia deixar de ser, por mais uma vitória eleitoral, mas distinguindo o mérito da mesma e as acções recentes dos responsáveis regionais – resumindo, disse Rosa, “o PSD nacional encara o resultado destas eleições com muita humildade”. Quinta, os madeirenses querem mesmo continuar a ser portugueses: apenas atribuíram a vitória a Alberto João por oportunidade – não há mais ninguém, por muitos que sejam os disparates de Jardim, por muito que a oposição rosne, por mais preparado que esteja o CDS-Madeira, que melhor consiga gerir os assuntos da região do que o “tiranete” – é algo que espanta, mas é verdade. Sexta, o PSD tem de se cuidar, e muito, com o CSD: hoje, o partido de Portas vinga onde era impensável que vingasse, é verdadeira alternativa e jamais retornará, senão com um grande tombo, ao “partido do táxi”. Sétima, o PS está absolutamente sem norte: sem liderança afirmativa, ideias ou alternativas, envergonhado pelo seu passado recente (com razões para isso) e mal encarado pelos cidadãos – vai de pior a péssimo! Oitava e por último (mas não menos importante, absolutamente!), na Madeira tudo é diferente: o acto eleitoral de ontem foi um escândalo (sem exagero algum) – desde licores oferecidos à porta de assembleias de voto a carrinhas de empresas públicas transportando eleitores para exercer o seu direito cívico, de espectáculos de propaganda eleitoral em dia de consulta a festejos excessivos na sede do vencedor ( a) após o discurso de Jardim, uns quantos energúmenos, do 7º piso da sede, começaram a atirar baldes de água cá para baixo, onde se encontravam jornalistas em reportagem, do género “cá vai disto”, e, b) nos momentos seguintes, não contente com a festa que ali estava montada, um sujeito de igual “relevância” deu de si a largar, na direcção dos demais, espuma de extintor, de tal maneira que até o “querido líder” se teve de resguardar no edifício) – percebo por isso que o Dr. Jardim diga que a Comissão Nacional de Eleições não serve para nada (por ele era eliminada): tudo isto está ao nível das eleições no Sudão (completamente submundano).
Acabada esta anestesia, normal nas campanhas e, ainda para mais, quando elas se realizam na Madeira, é a altura do aperto. Um aperto austeritário que os madeirenses raramente sentiram. Um aperto político que Jardim nunca experimentara. Um aperto económico que a região não se lembra de sofrer. Entre IVA’s e outros impostos a subir, despesa pública a mirrar, cortes salariais e nos funcionários públicos, offshores a rever (presumivelmente, embora não para já) e desemprego a aumentar (como no continente), folgas orçamentais nulas e dívidas por saldar, digam-me lá se não há para aqui coisas que entretenham Alberto João e “os seus feudos” (como diz Pulido Valente) nos próximos tempos? Jardim não pode falhar. E o pior, para mal da região e do País, é que vai mesmo falhar. That’s my bet!
O Povo, em geral e nestas coisas (apesar de nem sempre), é sabichão: sabe dar o poder a quem melhor o executa, dá-o na proporção adequada e penaliza quem tem de penalizar. Ao Dr. Jardim, tudo isto aconteceu. E, por incrível, o grande vitorioso da noite de ontem foi mesmo quem não se deu por ele: Pedro Passos Coelho – pôde somar, sem qualquer esforço pessoal, mais um triunfo ao palmarés do PSD; sabe agora que, daqui para a frente, Alberto João Jardim está “preso por um fio”, por uma maioria inconsistente e por um partido que já não o “grama”; tem consciência de que, nunca como antes, Jardim esteve tão frágil, física e politicamente, e dependente das ordens e vontades de “Lisboa”.
Jardim está entrincheirado nos buracos que cavou e, para seu desgosto e alívio dos bolsos de todos, a Madeira não será mais o arraial que tem sido… ou não!