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| Programação de "serviço público", de facto |
O inacreditável da história Borges-Relvas-Passos-administração
da RTP é a desnexo de toda ela. O seu maior contra-senso é que quem tinha
mais condições para passar a “batata quente” foi quem mais desbocou: António
Borges. Não sei se o fez por livre convicção ou a mando de alguém (o mais
provável, a meu ver), mas o assustador é que ele parece saber e decidir mais do
que quem está no Governo. O senhor, que falou mais numa hora do que muitos
ministros num ano, lançou o barro à parede. Caiu mal. Pelo menos
"queimou-se" um "consultor" e não um ministro (oficial).
A questão da propriedade pública de
canais de TV coloca-se essencialmente a dois níveis. O primeiro, a utilidade
que eles trazem à sociedade, a famosa cantilena do "serviço público".
Quanto a isto, não é preciso um grande esforço para perceber que os programas
do Malato, do gordo Mendes ou as palhaçadas do Baião não interessam nem ao diabo. O mesmo se aplicando às
novelas brasileiras e às imensas horas dedicadas ao futebol, ao comentário do
futebol e ao comentário do comentário do futebol. Está tudo lá para
"encher", atraindo populaça. Concorrem apenas com o lixo da SIC e TVI. É esta a função da RTP? Não!
Em contrapartida, a programação mais rica é a mais ignorada delas: fascículos
histórico-culturais, mostra do Portugal "remoto", das tradições
locais, da gastronomia, das minorias étnicas, dos imigrantes cá e emigrantes lá, debates religiosos, parlamentares etc. são deitados fora por "não serem
rentáveis". Ora, a RTP2
desempenha toda esta função mas é posta de lado como se de nada valesse. E até
a RTPInformação desempenha melhor na função de informar do que o canal 1.
É portanto sobre isto que deveria
cair o debate. Se me perguntarem o interesse que tem a RTP1, eu respondo
tirando o “Telejornal” e o “Prós e Contras” de nada ela me vale. Se me
perguntarem o valor (não financeiro) da RTP2, eu respondo muito. Se me
perguntarem se a RTPInf deve continuar, eu respondo obviamente. Do canal
Internacional não sobram grandes debates da sua importância para os emigrantes.
Que se junte ao canal África então.
O segundo patamar de discussão
para este tema deveria ser a influência governativa na Televisão. É inevitável: a informação é "vigiada" por quem é manda. Na RTP1 senão directamente
pelo Governo, pela administração do canal que agrada ao Governo. E neste âmbito
a RTP1 não tem saído muito bem na fotografia.
Partindo desta base não me
importaria nada que o canal 1 fosse vendido. Até agradeceria já que é o mais
caro e o menos útil deles. Assim, o Estado concentrar-se-ia nos canais mais
valiosos e venderia a espelunca que sai cara aos privados.
Nada disto tem sido debatido. Ao
Governo só interessa concessionar vs. vender, e não o quê e como
concessionar/vender. A oposição só interessa se o Estado é rico ou não, se detém
ou não detém, e não se preocupa (principalmente BE e PCP) com a eterna promiscuidade Governo-informação na RTP1 e com a inutilidade da maioria dos
seus programas. Depois temos constitucionalistas-videntes que (como sempre) leem
na CRP o que não está lá, mal disfarçando o alinhamento ideológico. E ainda os
"especialistas em Televisão" que pregam como se a questão não fosse
eminentemente politica.
E assim vai: Relvas não fala,
Passos encaminha, Cavaco como de costume, Jerónimo grita, administração da RTP
não concordava com Governo mas não se demitia (felizmente já se desfez por ela
mesma), Governo não a demitia, Balsemão desespera e Borges actua. Um terror
nesta novela de Pais.
