escarafunchando no baú...

sábado, 20 de agosto de 2011

Leão, porque não ruges?


Acorda Sporting!

O Futebol é diferente: é especial, é esquisito. O Futebol é essencialmente estranho pela irracionalidade dos seus amantes: o que nos move a vibrar por onze tipos de cada lado a chutar uma bola, tentando metê-la num galinheiro de 7m x 3m? A resposta não cabe no lógico; é sim porque sim!
Nesta Europa, o soccer é uma religião: cada um escolhe uma seita, torce por ela e reza para que as outras fracassem. A escolha por um clube não tem grande ciência: ou se trata da influência da família, ou apenas porque a cor do seu equipamento nos atrai mais, ou simplesmente porque fomos desafiados a ser de A e não de B. No meu caso, coube-me o Sporting (SCP). Porquê? Sei lá! Sou um adepto crítico, não de todo irracional, opinativo como todos e apoiante q.b..
Dizem que os adeptos “leoninos” são sofredores. Estóicos, até! E têm razão. Se formos a ver o número de campeonatos ganhos pelo SCP nos últimos anos, comparando com o número de sócios que têm o clube, concluímos que há 90 mil almas que esperam há 10 anos pelo regresso de D. Sebastião, repetindo sistematicamente a cada Julho: “este ano é que é”! Pior que isso, o clube, fundado por gente snob e de posses, está cada vez mais pobre, sem estratégia, competência e resultados (desportivos e financeiros) apresentáveis.
O clube foi alvo, no último Março, de um processo de renovação: entrou uma nova administração (pouco legitimada, ou nada legitimada aliás, nas urnas), contratado um novo treinador, um novo plantel de futebol e introduzido um novo organigrama e uma refrescada equipa dirigente. Veremos se chega. Há sinais iniciais positivos, mas outros extremamente preocupantes.
Nesta década, a política desportiva do SCP tem ziguezagueado: ora para a formação, ora para jogadores do leste, ora para futebolistas dos principais campeonatos, ora para a pesca na América do Sul… Se analisarmos os nomes dos jogadores que o Sporting tem tido, surge-nos uma conclusão imediata: quando o clube apostou na formação e em jogadores do nosso campeonato, deu-se bem; quando desbaratou em “estrelas” de outras bandas, deu-se mal, muito mal mesmo, com honrosas excepções.
Jogadores como: Purovic, Marian Had, Celsinho, Gladstone, Pedro Silva, Tiuí, Carlos Bueno, Alecsandro, Romagnoli, Mota, Pongolle, Angulo, Caicedo, Grimi, Paredes, Farnerud, Koke, Wender, Edson, Hildebrand e Talles de Sousa, em contraponto com: Carriço, Adrien, Rui Patrício, Veloso, Pereirinha, Nani, Silvestre Varela, João Moutinho, Danny, Pedro Mendes, João Pereira, Tonel e Postiga, ajudam a explicar a conclusão extraída.
Salta por isso uma questão: para quê gastar rios” de dinheiro em estrangeiros caros e de pouco valor, se o SCP tem uma das melhores, mais conceituadas e produtivas academias de formação do mundo? O que move os dirigentes a apostarem em tipos como Koke (um espanhol de 3ª divisão), Mota (um brasileiro vindo das Ásias que falhava golos feitos), Bueno (um uruguaio cuja alcunha era “el loco”), Farnerud (um sueco do Estrasburgo com nome de xarope para a tosse) ou Pongolle (um francês que custou os “olhos da cara”), se há no próprio clube jovens ambiciosos, sportinguistas, portugueses e de potencial? Não percebo. Serão jogos de empresários? Os treinadores ganham comissões pelas transferências destes “artistas”? É a necessidade de “refrescar” os plantéis, de trazer novas culturas ao grupo de jogadores? Não há resposta. Talvez seja mesmo como escolher um clube: sim porque sim!
Ainda agora, a melhor resposta a esta fúria “estrangeirizadora” está a ser dada pelos jovens nacionais. No mundial de sub-20 na Colômbia, Portugal chegou à final, onde a disputará (hoje) com o Brasil. Muitos dos convocados presentes nesse mundial são ou foram formados em Alcochete. Muitos andam perdidos aí, a “rodar” na Bélgica e nas Académicas desta vida. Muitos, senão todos, não jogarão um minuto sequer em Alvalade, porque “não têm qualidade”, porque são portugueses, porque “há melhor”… Não se entende. Os dirigentes não abrem os olhos, não são coerentes, não querem o melhor para os clubes, de certo!
Ao contrário de outros anos, neste, ao que é dado a perceber, Luís Duque-Carlos Freitas construíram uma boa estrutura. Foram buscar um treinador nacional, jovem, com currículo no campeonato e nas provas europeias, mas sem experiência de treinar clubes com grande massa adepta e pressão constante. Quanto aos jogadores, é caso para exclamar: “finalmente um plantel de jeito”! Ao todo, entrarão 14 atletas, gastando outros tantos milhões para os ir buscar. Julgo terem sido bons negócios, salvo um ou outro caso, mas no geral foram bem trazidos. Apostaram em mercados pouco explorados mas que dão garantias (Holanda e Espanha) e transferiram jovens sul-americanos com margem de progressão. Gostava de ver mais portugueses e jovens das camadas jovens, porque sem oportunidades esses nunca jogarão no SCP. É de salientar que jogadores como: Jeffrén, Capel, Rodríguez, Schaars, Rinaudo e Wolfswinkel tenham vindo representar o nosso clube, mas igualmente de espantar que: Yannick Djaló, Evaldo e Marcelo Boeck tenham lugar no grupo. Penso que: Vítor Golas, Adrién, Wilson Eduardo, Diogo Salomão, Nuno Reis e Cédric mereciam chance na equipa e que: André Carrillo e Arias não eram precisos, mas as suas aptidões podem fazer deles bons atletas, cujo futuro retorno poderá justificar as suas apostas.
Vamos ver como corre. O início não foi brilhante, longe disso: depois de terem ganho num particular à Juventus, todos “embandeiraram em arco”, paralisando o seu progresso, o seu treino, a sua melhora; de seguida, levaram um “banho de humildade” na apresentação frente ao Valência, tendo-se seguido um torneio amigável em Espanha onde as exibições também não foram fantásticas; nos primeiros jogos a sério, os resultados continuaram a não surgir, e assim vamos.
Colocam-se os fantasmas de outras épocas, que aparecem quando nada começa a correr bem. Junta-se a esses “espíritos”, um outro, igualmente estranho, que se abriga no conservadorismo de Domingos Paciência (DP – o treinador). Domingos fez um trabalho notável na Académica primeiro, no Sp. Braga depois. Mas treinar estes clubes, por muito prestígio que possam ter ganho ultimamente (como no caso do segundo), não é o mesmo que orientar um SCP com a obrigação de se assumir a possível campeão, que tem de jogar futebol que se veja e cujo jogo seja de ataque e não de “retranca”.
Posto isto, é incompreensível como, a jogar contra a Olhanense em casa na 1ª jornada, com o estádio quase cheio, o treinador tenha montado um meio-campo com três médios de combate, defensivos até (Rinaudo, Schaars e André Santos), cujas qualidades são intactas e reconhecidas, mas nunca se evidenciarão a jogarem juntos. É-me igualmente inatingível como, perante tão fraca equipa vinda do Algarve, que defendeu o jogo todo, Paciência coloque apenas um ponta-lança em campo (Hélder Postiga), tendo um outro em grande forma (Diego Rubio) e outro goleador de créditos firmados (Wolfswinkel) no banco. É pois um desperdício ter jogadores de qualidade sem minutos de competição. Não bastando isto, DP parece apreciar muito as qualidades de Djaló, cuja reputação entre nós (adeptos) é de CCC–. Não contente com o resultado “alcançado” frente aos de Olhão (apesar do bom jogo apresentado), o Sporting foi a meio da semana à Dinamarca defrontar o Nordsjaelland, a contar para a Liga Europa, uns quase-amadores da 4ª divisão da Europa do futebol (com nome de aspirador!). O jogo acabou como começou e DP lançou os mesmos onze. Deu-se mal, como se tinha dado no primeiro jogo. Foi mau demais. Domingos não arrisca nada e, pior que isso, não parece aprender com os erros. Estamos mal, começámos mal e, pior cenário, a onda de apoio e de esperança em torno da equipa parece estar a abrandar.
Domingos é de ciclos: quando as coisas começam a correr bem, a coisa endireita-se e segue para o sucesso; quando iniciam mal, é difícil dar a volta. Temo que seja este último a vingar. Se assim for, DP tem o Natal “em risco. Para mal do Sporting, mais uma vez. Nunca houve tão grande oportunidade para a equipa ser bem sucedida: tem um grande conjunto de jogadores, adeptos que a apoiam, uma estrutura dirigente que a serve, infra-estruturas de topo à sua disposição e, tão ou mais importante, rivais enfraquecidos (pela saída de meia equipa e treinador, num caso – FC Porto – e pelo desgaste do treinador e impaciência dos seus adeptos, noutro – SL Benfica). Se as coisas correrem mal, como se está a indiciar, a culpa é exclusiva de Paciência.
Resta-nos então aguardar pelos resultados. É urgente fazer “boa figura”: pelos adeptos, pela competição com os rivais, pelas finanças do clube. Há condições para fazer bem, é também esperar que a “estrelinha” apareça. Venha ela!