Os manifestos e petições voltaram à carga. Depois da moda das “gerações à rasca”, sem se saber quantas são, se apenas jovens ou idosas, ou todas ao mesmo tempo, e a nova corrente dos “indignados”, não se sabe bem contra quê (tudo?), estão de volta os escritos cidadãos. Este exemplo de “democracia” mais não quer do que contrariar a democracia propriamente dita: a das urnas.
Tirando esse pequeno pormenor, aquilo que me interessa é apenas um dos movimentos: um corrido bem de fresco, dirigido à contestação das massas, sob epigrafe: “Um novo rumo”.
Sobre esse, encabeçado por Mário Soares, devo dizer que não alcanço o alcance que aquilo tenta alcançar (!). O manifesto é zero, ou muito próximo disso. E por várias razões: a credibilidade de quem o promove, os alicerces da posição e o momento da divulgação.
Quanto a credibilidades, não será preciso dizer muito.
Talvez apenas lembrar a inversão ideológica de que Soares foi vítima. O que seria esta «uma sociedade socialista, mas em liberdade», virou uma democracia dos interesses, dos “amigos”, dos partidos. E, para isso, muito contribuiu a veia soarista, o clã que construiu (a começar na sua casa) e a rede que instalou.
Talvez apenas lembrar o caso “Melancia”, o “Emaudio”, a sua Fundação e os dinheiros públicos que implic(ar)am, os negócios camarários com o filho João, as construções sem PDM’s nem licenças, as subvenções, subsídios e prendas recolhidas ao Estado (português e estrangeiros).
Talvez apenas lembrar as “viagens de Estado”, os 57 países visitados (Espanha – 24 vezes –, França - 21), a tartaruga das Seychelles e os mais de 992 mil km’s percorridos à boleia da diplomacia (22 voltas ao Mundo).
Quanto a isto, estamos conversados.
Quanto aos termos do que (não) propõem, também é fácil falar. Se virmos bem, «o manifesto de uma esquerda intelectualmente superior e socialmente caviar» (palavras não minhas) só tem banalidades. Só que ditas por pessoas “experientes” e “intelectualmente superiores”.
Hoje, ninguém, ou quase ninguém, se engana sobre a «escalada da anarquia financeira internacional», que a «sobrevivência da União Europeia» está hoje em causa (muito mais a da Zona Euro), a «austeridade [apenas soma} desemprego e recessão», que «há muita gente aflita entre nós» e muito mais que «é preciso encontrar um novo paradigma para a UE». Disso ninguém duvida, agora o que se adianta para substituir o «paradigma» «neo-liberal» instalado é que já é mais complicado.
No fundo, a frase que fica do subscrito é: «os signatários opõem-se a políticas de austeridade». Ponto final. Claro! A austeridade não apetece a ninguém: um gordo preferiria continuar comendo, um alcoólico bebendo, um drogado traficando e um serial killer matando. Mas não é possível. Se os Estados são grandes, “gordos”, “viciados” em impostos, se gastam muito, se produzem pouco, se se endividam à velocidade dum mustang e se “matam” a economia com despesa inútil, é porque “algo” não está bem. E é por isso que temos de mudar de «paradigma». Não para satisfazer barões europeístas.
Desta forma, é fácil dizer-se que o status quo não satisfaz. Pois é. Mas, para quem, desde 1974, vive à roda do Estado, se faz subsidiar bem, “conhece” muita gente e está a salvo de qualquer crítica ou investigação aos seus “negócios”, nada é de admirar. E já nem se fala na(s) (in)coerência(s) do dr. Mário. É escusado.
Soares sabe, mais que muitos, o quão ingovernável é esta situação. Se Portugal está pré-falido (como está e já esteve múltiplas vezes), a opção só pode ser: ou arca com as consequências da bancarrota, ou submete-se aos “caprichos” do FMI. Se isto, para quem é leigo, é óbvio, quanto mais para um sr. ex-primeiro-ministro que assinou um plano de ajuda com instâncias internacionais? Conclui-se que Soares nada aprendeu com o seu ministro das finanças de então: Ernâni Lopes. Um desperdício.
E, finalmente, para falarmos do timing da divulgação do manifesto. Ao que chegou o populismo desta gente. Na véspera duma greve geral, criticada até por críticos do governo, pela inoportunidade, o nulo contributo para a solução dos problemas colectivos, vir-se exaltar as massas é um «convite» claro e explícito à «sublevação» e à «anarquia» (palavras não minhas, outra vez). Ainda para mais, fazendo-se alusão à “rua árabe” sem norte, governo nem paz, é um perfeito disparate, como qualquer ajuizado pensará. Não é preciso dizer-se muito: Portugal é uma democracia de base cristã.
De facto, é difícil separar a desonestidade dos efeitos da idade. Se Soares já não está capaz de pensar por si, se está mal informado, ou esquecido, isso é com ele, ou com quem dele trata. Seja o que for, dispense o País destes inventos. Deixe «as nossas ruas e praças» como estão. Vá tratar da sua "rua". Maçónica!



