A TVI está de volta às polémicas. Parece um íman que se leva aos casos e controvérsias sociais. Já os teve por várias razões. Depois dos episódios de Manuela Moura Guedes, do caso “PT-TVI” e de outros mais recatados que apareceram, agora a “Casa dos Segredos”. É a demonstração prática da teoria de Schumpeter que, não raras vezes, os próprios economistas têm dificuldades em passar do papel. De tempos a tempos, a TeleVisão Independente (assim lhe chamam) faz gáudio de aparecer nos catálogos da estupidez nacional.
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| "Uma televisão feita por si": podera...! |
Nunca gostei da TVI. Irritam-me várias coisas nela. Desde já, a obsessão pela “ficção nacional”. Só pelo facto do seu mais honroso serviço ser o de passar novelas aos serões, é algo já de si bem demonstrativo da pobreza da estação.
Mas fora isso, o resto também não se aproveita. O jornalismo é paupérrimo. Faz questão de o ser: sensacionalista, populista, demagogo, tendencioso, pouco rigoroso. O que sobra não é melhor. Os programas de entretenimento, as manhãs do Goucha e as "Tardes da Júlia", ou qualquer coisa parecida que agora ilumina a ignorância nacional, são o espelho dum canal que só dá “bosta” (e acho que não estou a exagerar). Mas claro: nada disto a plebe ignora, por razão alguma a TVI é líder em audiências (só mesmo nisso). Salvam-se apesar deste tudo algumas reportagens irreverentes, não menos populistas, embora mais didácticas, e alguns comentários políticos. Uma gota neste oceano.
E depois vêm os reality shows. Uma moda importada, infelicíssima, não tão recente assim. Já conhecíamos os “Big Brothers” e as “Quintas das Celebridades”. Agora, essa “Secret Story” transposta.
Ainda sobre “celebridades”, que aliás a TVI tanta questão faz em formar, promover, idolatrar, lembro-me de João Gobern (fulano um tudo irritante, mas que desta acertou na mouche) que se entristeceu com um “País onde as baratas tontas da fama nada fazem para se aproximar desta, a não ser rastejarem nos comportamentos e disparatarem nas ideias”. Estas criaturas “célebres” são-no porque desempenharam papéis de “bruxa má”, “engatatão”, assassino em série, ou uma tipa que não hesitou em mostrar as mamas, nas novelas ou nos ditos “shows”, que o mesmo canal patrocina. Um ciclo interessante!
Não nos deve surpreender, neste colo tão inútil e abjecto, que a tal “Casa dos Segredos” seja um resultado disto tudo.
O País já tinha tido oportunidade de apreciar a forma mais genuína da ignorância da sua populaça, superiormente iluminada por uma concorrente. A juntar a isto, deu-se a pensar que, afinal, em consonância com o verbo “descarado” do nosso actual primeiro-ministro, por alturas da campanha de Maio, a história das “Novas Oportunidades” não serve mesmo para nada (como fiz referência em tempo “longínquo”). Obviamente não me querendo alongar na caracterização dos outros resíduos de tal “Casa”.
Agora, o Portugal do “nobre Povo” espanta-se (?) com o “segredo” dum tipo que, à boleia de fama tão instantânea e esperta, decidiu-se tentar enfiar em tal concurso, contando que o seu pai fora, em tempos, um praticante de corte e costura nos ventres humanos. (Recomendado o artigo de Ricardo Araújo Pereira na Visão desta semana, com o titulo: Édipo e Teresa Guilherme: um estudo)
Ao passo de tanta paralisia intelectual, a situação era a de uma combinação filho-pai (não sei qual o mais esclarecido), para que aquele, em potencial sacrifício deste, atingisse o trilho do “conhecimento”: que todos o conhecessem!
Isto tudo contado por um semanário sedento de investigações originais, irrequietas e incómodas, por meio duma jornalista experimentada, que muito tem prestado à Nação pelas histórias que escreve (com dose de seriedade). Mas que, francamente, neste caso, caiu numa esparrela ridícula. Merecia mais cuidado.
Um episódio delirante este numa Pátria entregue a Chico-espertos, ignorantes, aldrabões e ociosos. Tal coisa que só vem mostrar o triste fado da nossa “Justiça”, a passividade da Investigação Criminal que cá actua, a insensatez desta “Sociedade” e a parolice da Comunicação Social lusitana.
E é caso para perguntar, numa altura em que o Governo tem ideia firme sobre o modelo de imprensa e de “serviço público”: como conseguirá ele (o Governo) garantir uma televisão responsável, culta e informativa, ao mesmo tempo que entrega mais uma estação pública ao privado? Como se compatibiliza uma TV privatizada como uma TV credibilizada? Ou não estará o mesmo nem aí para se ocupar com tais questões?
Finda a estupidez generalizada (?), e findo o meu discurso, apetece questionar: quando o secretario de Estado da Juventude incitou os jovens à emigração, estaria ele a pensar em quem cá ficaria para tomar as rédeas desta Cidadania, ou a magicar forma mais simples de se reeleger à pala de eleitorado tão cultivado?
Este “concurso mentecapto, corruptor e perverso” (de novo citando o referido fulano) é tão-só a consequência dum sistema educativo débil, desresponsabilizante e flácido, e não a sua causa. Por esta razão “é o funcionamento da Democracia Portuguesa que está em causa”, como disse Balsemão, mas não pelas suas justificações. Um aviso seríssimo!



