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| O concílio de "Estaline" e "Trotsky": já se falam! |
Portugal é diferente no Mundo em muita coisa: pela sua História, pela sua gente, pela sua paisagem, pela sua comida, pela “sua” meteorologia, etc., etc.. Também na política este País se destaca do Resto do Mundo, ou, no mínimo, do Resto da Europa. Um dos melhores exemplos disso é o peso comparativo da Esquerda-radical.
Há muito que explique esse fenómeno, mas também muito que não o explique… É verdade que tivemos uma ditadura católico-conservadora de direita durante 48 anos, é verdade que no período revolucionário pôs-25/4 (PREC) os partidos de Esquerda e os sindicatos ganharam uma força brutal, é verdade que ainda hoje o País é pobre e que aqui os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, é verdade que os Portugueses não gostam de mudar (talvez pela herança "católico-conservadora" sejam isso mesmo: conservadores). Tudo isso não é mentira, mas também não o é o facto de: a ditadura já lá ir há 37 anos (!), o PREC só deixar saudades aos que nele se envolveram, Portugal ser um País europeu (e não sul ou centro-americano), os Portugueses terem uma vida confortável ainda assim, a Lusitânia não ser um “reino” industrial, dos operários explorados e oprimidos, novamente etc., etc..
Nas últimas Legislativas (5/6), a “verdadeira Esquerda” teve uma derrota estrondosa: perderam votos, perderam deputados, perderam força. A mensagem “não passou”; ou não podia passar, tal era (é) a sua inexequibilidade. Barafustaram contra o acordo da troika, sem sequer o terem negociado, mas não disseram, porque não sabiam (sabem), o que fariam se governassem (em ficção) para resolver o problema de liquidez da nossa Economia. Em rigor, percebe-se a estratégia: aquela gente estará sempre condenada a protestar, e não a governar, pelo que não precisam de apresentar, apenas e só de rejeitar. Apesar de tudo (resultados eleitorais, “manifesto entregue” pelo eleitorado a esses partidos…), PCP e BE continuam na mesma cega-rega: não perceberam o sinal dos tempos, persistindo na “luta”. Pior que isso, não reconheceram a derrota (ao melhor estilo democrático, como tanto apregoam…), não tiraram ilações. Estão condenados a sucumbir à sua interna podridão. Não há hipótese…
Cá, PC e Bloco acusam (com razão) PSD e PS de alternarem no jogo de poder, de serem parasitas, de só pensarem nos seus interesses, de cortarem no que “não lhes custa”. Mas, se olharmos ao que acontece nos dois conjuntos de partidos (bloco da Esquerda e bloco central), chegamos sem grande esforço àquele ditado: “bem prega o frei Tomás,…”!
Se formos comparar a dimensão do debate interno nos dois blocos, podemos tirar ilações do que seria Portugal se este fosse entregue a trotskistas ou estalinistas. Sim, porque por baixo da capa indefinida “Esquerda”, estão esses fundamentos ideológicos, cujas suas execuções pudemos encontrar em amostra (ou em noção geral) na URSS, noutros tempos, e nalguns persistentes regimes, nos dias que correm.
A diferença de paradigma no que toca ao debate partidário interno pode ser, logo, calculada pelos estatutos dos vários partidos e confirmada, melhor ainda, pela prática corrente dos mesmos. Quando há congressos de PS e PSD, é frequente (embora cada vez menos) assistirmos à dissidência, ao debate, ao confronto, à proposta alternativa (nem que seja pouco alternativa). Para além da acessibilidade a esses encontros, no que ao relato da imprensa diz respeito. Já quando se realizam os conclaves de PCP e BE, muito dificilmente vislumbramos ideias diferentes, oposições internas, moções contrárias, candidaturas múltiplas aos comandos dos partidos, heterodoxias várias ou outros fenómenos comuns nas Democracias. Tudo é igual: as frases, os slogans, os discursos, as palavras; precisamos de uma lupa para achar as diferenças! Já quanto ao acesso dos media, destacam-se os momentos de “discussão” e eleição à porta fechada. Isto sim é transparência e democracia directa!
Muito se pode denunciar os partidos do “centrão” no que respeita ao clientelismo que cerca o sector público, mas também muito se pode induzir, e confirmar, nalgumas situações presentes, que, se PC e BE tomassem o poder, o esquema seria o mesmo, ou pior (é de relembrar que a URSS durou 69 anos – 1,5 vezes o Estado Novo!). Se atentarmos aos “hábitos” das câmaras autárquicas comunistas, inferimos que estas “padecem” de vícios, tão ou mais difíceis de curar do que os daquelas nas “mãos” de PS e PSD (em endividamento, número de trabalhadores autárquicos/habitante, despesas (des)controladas, empresas municipais, populismos, festas e outros foguetórios…; em resumo, má gestão do dinheiro de todos). Algo mais que justifique para os outros fazerem aquilo que eles pregam e não o que eles praticam.
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| Votação na CDU: sempre a subir! |
Mas calma! O ciclo democrático é feito de eleições, em que o Povo possa participar (bem dito). E aí o caso muda de figura (ou não).Para continuar este passatempo do “descubra as diferenças”, coloco uma questão: alguém se lembra da CDU, desde 1974, ter perdido alguma eleição (uma única que seja)? Nem mesmo quando, em várias Presidenciais, desistiu em favor de outras candidaturas? Nem mesmo quando, em várias Legislativas, não conseguiu capitalizar o descontentamento nos governos socialistas? Nem mesmo quando, a cada eleição, a sua percentagem de votos é sucessivamente menor (ver gráfico) ? Nem mesmo quando, nas Presidenciais de 2001, não atingiu mais do que 5% dos votos? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2009, passou a 5ª força política nacional? Nem mesmo quando, nas Autárquicas de 2009, perdeu 19 câmaras municipais? Nem mesmo quando, nas Legislativas de 2011, não impôs o discurso anti-troika (“interna” e “externa”), nem sequer aproveitou a redução da votação (para metade) do seu vizinho Bloco de Esquerda? Ninguém se lembra?! Nos tempos que atravessamos, precisamos de gente sem temores, imbatível. Não precisamos de procurar muito: está no nosso Parlamento!
Mas, para que a "inveja" não se apodere das outras hostes esquerdistas, o mesmo se aplica a elas. Um e o mais elucidativo exemplo disso foi a reacção do Coordenador da Mesa Nacional do BE (que, noutro partido, tem a original designação de “Secretário-Geral” ou “Presidente”) aos mandatos que o Povo lhe decidiu atribuir nas Legislativas’11. Recorde-se que o Bloco obteve 5,2% dos votos (em 2009, havia obtido 9,8%) e apenas elegeu 8 deputados (em 2009, haviam sido 16). Em qualquer partido (cuja votação se parta ao meio) que saiba assumir as suas responsabilidades, que o seu projecto político não foi aceite pelo Povo, que o seu discurso (a forma e o conteúdo) (já) não é bem escutado pelo eleitorado e que os seus ideais precisam de uma reforma que o escrutínio popular não pode operar, o “Presidente” ou “Secretário-Geral” demite-se e/ou, no mínimo, pede a convocação de um congresso extraordinário o mais depressa possível, para avaliar esses temas. No Bloco, onde tudo é diferente, a começar pelo nome que se dá ao Congresso (Convenção) e ao Secretário-Geral (Coordenador da Mesa Nacional), nada disto acontece.
Louçã “chutou”, e continua a “chutar”, a sua responsabilidade no resultado alcançado pelo partido para o “grande debate interno”, sem se notar qualquer reforma na orientação política, mudança na estrutura directiva (quase a mesma desde a fundação) ou ajuste no discurso, passados que estão seis meses do inquérito universal. E nem o facto de alguns militantes terem vindo criticar a postura do seu líder, demove Louçã da sua (perpétua) estratégia: manter-se no “poder”. São, nesse ponto, conhecidas as opiniões de Daniel Oliveira (um dos militantes que colhe mais simpatias nas outras Esquerdas e Direitas), a renúncia de Miguel Portas ao cargo de membro da Mesa (lá vem outra vez a “Mesa”) e as dissidências de Rui Tavares (embora este seja independente). Para aqueles que, como Louçã, defendem a “revolução permanente”, não mudar nada ao fim de 13 anos de vida partidária, ainda para mais depois de uma brutal queda eleitoral, parece-me muito boa prática. De facto, “não há nada mais prático do que uma boa teoria”!
Talvez a origem deste tipo de comportamentos e na essencial e aparente desagregação interna do Bloco esteja na contradição entre o(s) seu(s) fundamento(s) ideológico(s), a arrogância política e a prática pessoal dos militantes e simpatizantes do partido (desde a base ao topo). Talvez…
É óbvio que nada disto legitima qualquer medida que o “centrão” partidário decida aplicar. Os unanimismos nunca fizeram bem a sociedade alguma, e a Esquerda sabe-o melhor que muitos. Mas, para se ser oposição, é preciso ter o telhado em condições para que, quando se atirar pedras ao ar, elas não caiam na própria casa.
O que me irrita na Esquerda portuguesa é o modelo social que preconizam. Claro que, sem essa "diferença", não seriam Esquerda, mas “Direita”, misturada no rebanho do “neo-liberalismo”. Contudo, esses utópicos sabem que a sua “sociedade ideal” não é possível (burocracia, insustentabilidade financeira, paralisia económica e social,…). Sabem-no por experiência prática. As externalidades e efeitos secundários da sua “luta” estão visíveis na História (e no presente) e pagaram-se caro à Humanidade em guerra, fome, miséria, infelicidade.
Juntando-se a esta minha “irritação”, vem uma outra mais palpável, audível. O “verbo inflamado”, a raiva no discurso, o ressabiamento no way of speaking. Por ventura será por esta “pele de galinha” que a Esquerda está em crise. A irritação não é só minha, pelos vistos. Essa é a parte mais sensível da tal “podridão”. Nada melhor que o explique.